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terça-feira, 28 de abril de 2020

...do desassossego...


 
 "Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa.  [...] - sim, mas as coisas pequenas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e as terei, pelo menos naquele preciso e exacto momento, doem-me metafisicamente. Abre-se-me um abismo na alma e um sopro frio da boca de Deus roça-me pela face lívida.
 O tempo! O passado! Aí algures, uma voz, um canto, um perfume ocasional levantou em minha alma o pano de boca das minhas recordações.... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância.
Quando os evoco, toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."

Fernando Pessoa, in «O livro do desassossego»

quarta-feira, 6 de março de 2019

"Vento no rosto"





À hora em que as tardes descem,
noite aspergindo nos ares,
as coisas familiares
noutras formas acontecem.

As arestas emudecem.
Abrem-se flores nos olhares.
Em perspectivas lunares
lixo e pedras resplandecem.

Silêncios, perfis de lagos,
escorrem cortinas de afagos,
malhas tecidas de engodos.

Apetece acreditar,
ter esperanças, confiar,
amar a tudo e a todos.

António Gedeão, in Poesias Completas

domingo, 17 de setembro de 2017

** Solidão Criadora**

Solidão...

Set./1949


Dorme e sonha a meu lado
Tão alheia de mim
Que me sinto um amante abandonado...
Acordá-la?
Gritar?
O poeta é uma angústia que se cala,
A cantar.



Miguel Torga,in Poesia Completa I

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Ao cair da folha...


[09.10.2006]

São pétalas caídas das rosas
da roseira dos dias
com odor doentio e doce
dor de dias passados
em monotonia cinzenta
lenta e perfumada
diluída na doçura do outono
quando o sol não brilha
nem aquece
e toda a cor da alegria
esmorece
num halo de escassa luz
em redor.

Mª Avilez

domingo, 21 de abril de 2013

No extremo do possível...


A casa
privada de mastros
facilmente é
exígua e rasa

Azul estridência
do silêncio
o céu
consome-se na pedra

O cume é a água

Eugénio de Andrade, Véspera da Água

domingo, 10 de fevereiro de 2013

«Crépuscule...»


Crepúsculo

Não é a noite, é a lua. O céu, doce
como um copo de leite, faz-te sorrir, meu querido apaixonado.
E falas-me deles. Embelezam-te a alma,
embelezam a tua casa, embelezam-nos a vida.
São demasiados, amigo : pai, mãe, filhos, esposa,
 a não serem felizes.
Entretanto, o teu sonho é tranquilo,
e eu suponho demais.

Paul Éluard - (tradução)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Não, não digas...


Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.
És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

Fernando Pessoa, Cancioneiro.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

"O POETA"


Era nas suas mãos que terminavam
as coisas infinitas e finitas.
Por isso as suas mãos eram abismos
aonde se perdia o Pensamento.

Sebastião da Gama, Cabo da Boa Esperança

sábado, 12 de novembro de 2011

Agarrar o momento...


Não quero chegar ao fim da vida
e descobrir que só vivi a sua duração.
Quero, também, ter vivido a sua amplitude.

Diane Ackerman

Só uma vida quente, ávida, viva - 
- aprender, querer saber, sentir, pensar, agir.
É isso o que eu quero. E nada mais.

Katherine Mansfield

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ruptura


A noite fende -
o silêncio
escorre do muro.

De quanto os dedos
lembram ainda,
só o vento respira.

Já a minúscula
língua da erva
chama pela neve.

O silêncio
é o meu domínio:
a terra é leve.

eugénio de Andrade, Obscuro Domínio

sábado, 16 de julho de 2011

Eis-me


Eis.me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente.

Sophia de Mello, Livro Sexto