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terça-feira, 9 de julho de 2019

Valsa das rosas - Russian State Symphonic Orchestra



Não temos segurança absoluta,
                                              apenas esperança.

                                                                           Ernst Bloch

domingo, 19 de maio de 2019

Cuidar do seu jardim...


Surge a primeira flor ... uma possível romã... Um encanto!...
Porém, dizem que ainda vai ser mais bonita... Estou curiosa.



quinta-feira, 18 de abril de 2019

Nossa Senhora de Paris...

...no ideário poético de Mário de Sá-Carneiro 
[1890-1916]

Listas de som avançam  avançam para mim a fustigar-me 
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz.
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...

Catedral de Notre-Dame - à noite

Um cheiro a maresia
Vem-me refrescar,
Longínqua melodia
Toda saudosa a Mar...
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos...
Mas o oiro não perdura
E a noite cresce agora a desabar catedrais...
Fico sepulto sob círios
Escureço-me em delírios
Mas ressurjo de Ideais...

- Os meus sentidos a escoarem-se...
Altares e velas...
Orgulho... Estrelas...
Vitrais! Vitrais! 
Vitral - Notre-Dame
Flores de Lis...

Manchas de cor a ogivarem-se...
As grandes naves a sagrarem-se...
_ Nossa Senhora de Paris!...

(in Poesias de Mário de Sá-Carneiro)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Palavras e silêncio...


O silêncio é a minha maior tentação.

(...)
 As palavras, esse vício ocidental, 
estão gastas. envelhecidas, envilecidas.
 Fatigam, exasperam.
E mentem, separam,  ferem.  


 Também apaziguam, é certo, mas é tão raro! 


 Por cada palavra que chega até nós,
 ainda quente das entranhas do ser, 
quanta baba nos escorre em cima
 a fingir de música suprema!





 A plenitude do silêncio
 só os orientais a conhecem!
 Lao Tsé ensinou
 que quem sabe não fala
 e quem fala não sabe.(...)

Eugénio de Andrade, in Poesia e Prosa: Rosto Precário

*** Formatação da responsabilidade de Msilva.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

O Sonhar...


Deve haver um lugar onde um braço
e outro braço sejam mais que dois braços,
um ardor de folhas mordidas pela chuva,
a manhã perto nem que seja de rastos.

Eugénio de Andrade, in O Peso da Sombra


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A estrada incompreendida


Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não? 
Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste 
A mão que teve
Qualquer sentido 
Incompreendido, 
Mas tão de leve!...
Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa
Incompreendida...
Sei eu que quando 
A tua mão 
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?
Como se tu, 
Sem o querer, 
Em mim tocasses
Para dizer 
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses 
Que tinha ser.
Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa 
Coisa feliz.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro-[09.05.1934]

quinta-feira, 20 de março de 2014

O moringue...


O sol que queima as folhas das palmeiras
E os pés caminhantes sobre a areia
O sol que traz o vento e afasta o peixe
Ele não esquentará a água do moringue.
Não há sol no canto desta casa
Há sombras dos luandos que fazem as paredes
A areia do chão traz a frescura da terra
Os caniços dos luandos têm a frescura
Que trouxeram das terras de Cabíri
Quando, de andar nas canoas, voltamos do mar
E a garganta vem a arder como se era sal
A água do moringue sabe-nos como nada mais.

E, a quem nos pede, com o coração alegre,
Nós a oferecemos, nas canecas de esmalte.

Henrique Guerra
Angola

quarta-feira, 12 de março de 2014

Nocturno IV


Aquelas estrelas desenham um quadrado mal feito.

Nas noites claras de mar imenso,
enquanto a proa ia ensinando às águas
o murmúrio para depois, ao longo do navio, 
os mastros procuravam devagar o centro do quadrado.

Para baixo do centro havia três estrelas juntas.
Quando calhava passarem por entre duas,
repetiam todo o princípio
e vinham passar por entre as outras duas.

Jorge de Sena

sábado, 23 de novembro de 2013

Quando a geada cai...


Quando cai a geada, nas noites de inverno,
não se ouve nem um cão
ladrar sob o imenso e claro céu
onde uma gélida lua se queda
rígida como um bocado de ferro.
Porém, por vezes acontece  
que, não se sabe porquê, um cão uiva
sob a lua gelada, ao longe,
longe, muito longe, como se o seu uivo
surdisse do fundo do inferno 
quando a geada cai, nas noites de inverno.

Maurice Carême - (tradução)

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Aroma suave...


Eu digo, quando assoma
O astro criador;
Deus me fizesse aroma
De alguma pobre flor!

E digo, quando passa
Uma ave pelo ar: 
Deus me fizesse a graça
De asas para voar!


Aroma, da janela 
Me evaporava eu,
Me respirava ela
E me elevava ao céu!

E que, se eu fosse uma ave,
Me havia de privar
A mim da luz suave
Daquele seu olhar?

                                                                                                             João de Deus, Campo de Flores

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Fascinação...



Canta-lhe o vento as árias que conhece,
E nenhuma perturba aquele olhar.
Nenhuma o tansfigura ou adormece,
E o tira de sentir e de fitar.

Terra de consciência iluminada,
Limpa na sua luz pensada e fria 
A celeste canção enluarada
Nenhuma paz humana lhe daria.

Não, porque o vento só conduz aladas
Forças que oscilam a raiz;
E aquele olhar que descobrir paradas
Seivas da vida que a razão lhe diz.

Miguel Torga, Libertação - 1944