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domingo, 3 de março de 2019

A propósito de maus-tratos...

O luar quando bate na relva
Não sei que cousa me lembra...
Lembra-me a voz da criada velha
Contando-me contos de fadas. 


E de como Nossa Senhora vestida de mendiga 
Andava à noite nas estradas
Socorrendo as crianças maltratadas...

Se eu já não posso crer que isso é verdade,
Para que bate o luar na relva? 

Fernando Pessoa/ Obra Poética/ Ficções do Interlúdio/ Poemas Completos de Alberto Caeiro

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Aventurança...



Ver o mundo de baixo, como um céu 
Onde se há-de subir;
Onde a vida nasceu
E onde tem, afinal, de se cumprir.

 Erguer os olhos à divina altura
De uma leira de terra semeada;
À imensidão da lura
Onde cresce a ninhada.

 Ver astros, nuvens, tempestades, mitos, 
Onde há luas, quimeras, ambições, desejos; 
Onde há gritos
E beijos. 
  
Miguel Torga, in Libertação,-1944



quarta-feira, 9 de julho de 2014

Mulher caliente...


A Margarida chegou depois do almoço  para desabafar. Desta vez  o pretexto foi trazer batatas, curgetes, cebolas e ameixas amarelo-verdes, a que faltam umas semanas para amadurecer. Faz sempre isso quando a vida lhe pesa e precisa de um ombro para se lastimar.
Na zona onde vive, as moradias não têm vida antes da hora do jantar porque quase todos os vizinhos trabalham. No fim de semana saem quase todos para fora e raramente se vêem. 
Assim Margarida não teve amigas durante muito tempo e, quando surgiu uma do outro lado da rua, abriu-lhe as portas de par em par.
 Até que um dia...
Às vezes, os dois casais encontravam-se para jantar ou almoçar juntos, acompanhados raramente pelos filhos, já crescidos, já independentes. Porém, a partir de certa altura, a vizinha e amiga de Margarida começou a mostrar certos comportamentos algo estranhos, como visitar a casa de Margarida na ausência desta, levando almoços ao marido, o Vicente, que este depois deitava para o lixo, ou gritar por socorro para este acudir...  Margarida começou a desconfiar que a amiga lhe requestava o marido e resolveu afastar-se, até porque se lembrou entretanto de uma queixa da vizinha sobre o cara-metade: que era muito frio. E daí o querer, decerto, experienciar se o Vicente seria mais quente...
A perceber a retracção permanente, a vizinha de Margarida mudou de táctica e passou ao ataque cerrado: chama-lhe vaca e filha-da-p..., entre outros impropérios, sempre que a avista a sair ou a entrar em casa, ou a tratar do jardim. A pobre nem pode assomar a uma janela, com receio de exacerbar os insultos gratuitos da vizinha.
Margarida já pensou em dar queixa à polícia. Mas tem medo da vizinha  e de possíveis retaliações, como assolar-lhe os ciganos que de vez em quando vê que lhe frequentam a casa, não sabe com que intenção. O marido e o filho de Margarida também lhe aconselham calma.
Mas Margarida está desolada e veio pedir conselho.
Que conselho se lhe poderá dar senão o de fingir que não é nada com ela?...

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A Flor Sem Nome


As rosas reuniram outra vez
uma ordem de fogo rumorosa.
E o povo bebeu
aquela rosa.

E vai crescendo em círculos,
em onda,
a pura embriaguez
daquela flor redonda.

Vai crescendo por dentro
 - vermelha, música, apertada.
E faz doer os ossos.
Vem irada

como lua de sangue
que sobe na garganta
e se agarra aos soluços e à prudência,
mas já canta.

E, sobretudo, queima.
Sobretudo coloca
um vendaval de pedras
em cada boca.

E arde.
Arde e consome
aquela flor maldita
que ainda não tem nome.

Fernando Echevarria (1929), Sobre as Horas

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

«Meu país desgraçado»...


Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
E não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas...

Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé 
 - busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol,  o Mar, 
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo! 
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura 
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste, 
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres! 
 - olha a censura muda das mulheres! 
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

Sebastião da Gama, Cabo da Boa Esperança