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domingo, 3 de fevereiro de 2019

Aventurança...



Ver o mundo de baixo, como um céu 
Onde se há-de subir;
Onde a vida nasceu
E onde tem, afinal, de se cumprir.

 Erguer os olhos à divina altura
De uma leira de terra semeada;
À imensidão da lura
Onde cresce a ninhada.

 Ver astros, nuvens, tempestades, mitos, 
Onde há luas, quimeras, ambições, desejos; 
Onde há gritos
E beijos. 
  
Miguel Torga, in Libertação,-1944



domingo, 11 de novembro de 2018

tempo há...


tempo há onde se vê correr um rio
nítido, ágil, 
 na direcção do mar;
que nos arrasta lenta,
mansamente,
na voragem,
e sentimos
ser a imagem
de barco altaneiro
a flutuar
**
tempos depois,
porém,
deixam de ver-se as margens
- não importam,
nem distraem -hélas!
e já pouco ou nada encantam...
**
mas são momentos...
**
as águas seguem no seu vagar suave
- às vezes convulso -
mas lá seguem...
**
nenhum de nós, porém, soube  pará-las
e, por muito que se esforce,
não aprende...
**
deixá-las lá seguir,
deixá-las:
águas do rio, lágrimas choradas,
suor de vidas maceradas,
deixá-las lá seguir 
o seu triste destino 
**
consigo levam
- lavam-
vagas de paixão, revolta, esforço,
encantamento,
e resquícios fúlgidos
da terna e translúcida grilheta
 em vida tecida
do imenso carinho
que um estranho acaso uniu.


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Irritações de um engenheiro...

Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferença subjectiva! 
Qual "leva ao mar"! Tua presença esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?
Lesma de sorte! Vivo a cavalgar 
A sombra de um jumento. A vida viva 
Vive a dar nomes ao que não se ativa, 
Morre a pôr etiquetas ao grande ar...
Arte com sucata

Escancarado Furness*, mais três dias
Te aturarei, pobre engenheiro preso
A sucessibilíssimas vistorias... 
E. Munch - Auto-retrato com cigarro aceso

Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo
(E tu irás do mesmo modo que ias),
Qualquer, na gare, de cigarro aceso...


Soneto III in Barrow-on- Furness, última parte de " Ficções do Interlúdio"- Poemas de Álvaro de Campos,
 heterónimo de F. Pessoa


Furness* - Barrow-on-Furness, hoje cidade situada a norte de Inglaterra. Era uma aldeia pertencente ao condado de Cúmbria onde se desenvolvia então a indústria da construção de navios e onde, supostamente, o engenheiro naval Álvaro de Campos trabalharia.



sexta-feira, 25 de abril de 2014

LIBERDADE




- Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.
- Liberdade que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.


Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
- Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.




terça-feira, 12 de novembro de 2013

Port Wine...


O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape- Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.
[...]

Em Londres os lords e em Paris os snobs, 
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
 acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue, 
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!
Liberta-te, meu povo! - ou morre.

Joaquim Namorado - A Poesia Necessária (1966)

sábado, 19 de maio de 2012

Ver as flores de lótus...



... Quero morrer, quero ver as orvalhadas
flores de loto nas margens do Aqueronte...

Safo 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Oásis


Penetraremos no palmar
A água será clara o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu - o canto
Da flauta será nítido no liso
Da penumbra

Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira

Sophia de Mello Breyner Andresen, O nome das coisas

sábado, 12 de novembro de 2011

Poesia de ser...



.....................................................................

Poesia não é a rima encadeada e farta
Não é o sonho sem futuro e bonitos discursos.
É o revelar total dum homem infinitamente inteiro
Em que cabe o teu amor por tudo e, creio, Deus também.

........................................................................................................
José Blanc De Portugal (excerto)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Cantiga


Moto do próprio

De que me serve fugir
de morte, dor e perigo,
se me eu levo comigo?

Voltas

Tenho-me persuadido,
por razão conveniente,
que não posso ser contente,
pois que pude ser nascido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo
que eu mesmo sou meu perigo.

E se de mi me livrasse,
nenhum gosto me seria;
que, não sendo eu, não teria
mal que esse bem me tirasse.
Força é logo que assim passe,
ou com desgosto comigo,
ou sem gosto e sem perigo.

Luís de Camões, Lírica 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Folhas no vento da incompreensão



(Imagem colhida na net)

Que interesse tem a página que se cria com a mera intenção de eternizar um momento vivido que depois é esquecido?
A quem pode isso incomodar?
Entregamo-la ao sopro do vento e ao desconhecido para que aí fique.
Ou a quem por ela se possa interessar.
Nunca a um espírito materialista que não entenda que essa página de escrita tão só vale como libertação. Ou a mera tentativa de uma clarificação possível dum momento de sentir desordenado em nosso interior que precisou de escapar à pressão interna para escapar à loucura.
O mundo é dado, porém, à incompreensão frequentemente acompanhada de uma atitude de crítica muito negativa.
É perante ela que sempre surge no horizonte do pensar e do sentir a história do "velho, o rapaz e o burro"...
Não há volta a dar-lhe, porque sempre surge a incompreensão e a crítica fácil.
Porém, fiéis ao que somos ou fomos algum dia, lá vamos passando ao papel os estremecimentos de alma sentidos em algum lugar, em algum tempo vividos como forma de libertação ou de exorcismo.
Para nossa purificação.
Nem esperamos tornas, porque sentir nunca foi por nós negociado.
E esta nasceu e vai ficar como mais uma folha no limiar da incompreensão.