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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Mulher caliente...


A Margarida chegou depois do almoço  para desabafar. Desta vez  o pretexto foi trazer batatas, curgetes, cebolas e ameixas amarelo-verdes, a que faltam umas semanas para amadurecer. Faz sempre isso quando a vida lhe pesa e precisa de um ombro para se lastimar.
Na zona onde vive, as moradias não têm vida antes da hora do jantar porque quase todos os vizinhos trabalham. No fim de semana saem quase todos para fora e raramente se vêem. 
Assim Margarida não teve amigas durante muito tempo e, quando surgiu uma do outro lado da rua, abriu-lhe as portas de par em par.
 Até que um dia...
Às vezes, os dois casais encontravam-se para jantar ou almoçar juntos, acompanhados raramente pelos filhos, já crescidos, já independentes. Porém, a partir de certa altura, a vizinha e amiga de Margarida começou a mostrar certos comportamentos algo estranhos, como visitar a casa de Margarida na ausência desta, levando almoços ao marido, o Vicente, que este depois deitava para o lixo, ou gritar por socorro para este acudir...  Margarida começou a desconfiar que a amiga lhe requestava o marido e resolveu afastar-se, até porque se lembrou entretanto de uma queixa da vizinha sobre o cara-metade: que era muito frio. E daí o querer, decerto, experienciar se o Vicente seria mais quente...
A perceber a retracção permanente, a vizinha de Margarida mudou de táctica e passou ao ataque cerrado: chama-lhe vaca e filha-da-p..., entre outros impropérios, sempre que a avista a sair ou a entrar em casa, ou a tratar do jardim. A pobre nem pode assomar a uma janela, com receio de exacerbar os insultos gratuitos da vizinha.
Margarida já pensou em dar queixa à polícia. Mas tem medo da vizinha  e de possíveis retaliações, como assolar-lhe os ciganos que de vez em quando vê que lhe frequentam a casa, não sabe com que intenção. O marido e o filho de Margarida também lhe aconselham calma.
Mas Margarida está desolada e veio pedir conselho.
Que conselho se lhe poderá dar senão o de fingir que não é nada com ela?...

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A Flor Sem Nome


As rosas reuniram outra vez
uma ordem de fogo rumorosa.
E o povo bebeu
aquela rosa.

E vai crescendo em círculos,
em onda,
a pura embriaguez
daquela flor redonda.

Vai crescendo por dentro
 - vermelha, música, apertada.
E faz doer os ossos.
Vem irada

como lua de sangue
que sobe na garganta
e se agarra aos soluços e à prudência,
mas já canta.

E, sobretudo, queima.
Sobretudo coloca
um vendaval de pedras
em cada boca.

E arde.
Arde e consome
aquela flor maldita
que ainda não tem nome.

Fernando Echevarria (1929), Sobre as Horas

domingo, 19 de julho de 2009

Um drama - dos mais pequenos (continuação)

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A mãe, desconfiando da ausência, abriu a porta devagar e olhou admirada o vulto da filha sobre a cama. Pensou se não estaria doente porque não eram horas decentes para se dormir e aquela criatura nunca dormia. Cautelosa, aproximou-se mais, espreitou-lhe o rosto e viu lágrimas. Não lhe batera nesse dia, não a repreendera... Suspeitou de um desgosto e recordou que a notara impaciente porque o homenzinho dos jornais nunca mais chegava. Tinha-a ouvido protestar que o pobre homem levava tempo demais a fazer o troco aos fregueses, de óculos ridiculamente acavalados no nariz, sacola de pano cinzento presa ao ombro, desculpando-se que o combóio era ronceiro, nunca mais chegava... Via-se que estava impaciente para que ele acabasse a conversa e desandasse. Lembrava-se a mãe de ouvir-lhe recriminações porque a revista nunca mais chegava e, já de posse dela, fugira para o quarto... E estranhou de novo os vestígios das lágrimas e o sono àquela hora desapropriada. Antes de sair reparou na revista amarfanhada a um canto. E acabou por concluir que não devia ser nada de cuidado.
Num repente de boa vontade - não a acordou.

(Continua)

sábado, 18 de julho de 2009

Drama - dos pequenos (continuação)



Aquelas palavras magoavam-na. Doía qualquer coisa bem lá no fundo quando pousava de novo os olhos naquelas letras negras de imprensa que tanto a humilhavam. Desejava sumir-se pelo chão abaixo, transformar-se em mosquito que fosse capaz de ferrar a mão cruel que mandara imprimir aquelas palavras, mesmo que depois morresse como as abelhas, logo ali, por ter ferrado. Mas nada podia fazer para se vingar de quem lhe vibrara tão cruamente aquele golpe e apertou as mãos em desespero. Então as lágrimas começaram a rolar pelas faces, amargas, geladas. Só que não sentia que arrastassem consigo tanta amargura e precisava de fazer alguma coisa... como gritar, para tentar expulsar o peso que parecia sufocá-la.
Num repente, levantou-se e, num movimento de raiva, de impotência, amarfanhou a revista que lançou para um canto e atirou-se sobre a cama, agarrando desesperadamente a almofada onde tentou reprimir os soluços e os gritos que se lhe atravessavam na garganta contraída, num espasmo dificilmente contido.
De vez em quando fugia-lhe um queixume que logo era desesperadamente sufocado. E perdida a noção do tempo, quebrantada pelo próprio desespero, acabou por adormecer no estancar das últimas lágrimas.

(Continua)

sábado, 11 de julho de 2009

Visão

Visão

A J. M. Eça de Queirós


Eu vi o Amor - mas nos seus olhos baços
Nada sorria já: só fixo e lento
Morava agora ali um pensamento
De dor sem trégua e de íntimos cansaços.

Pairava, como espectro, nos espaços,
Todo envolto num nimbo pardacento...
Na atitude convulsa do tormento,
Torcia e retorcia os magros braços...

E arrancava das asas destroçadas
A uma e uma as penas maculadas,
Soltando a espaços um soluço fundo,

Soluço de ódio e raiva impenitentes...
E do fantasma as lágrimas ardentes
Caíam lentamente sobre o Mundo!

Antero de Quental, Sonetos