domingo, 12 de dezembro de 2010

Cenas da Vida Liceal - Parte V




Matinée dançante [cont.]

De certo modo, as apreciações de Catarina sobre Francisco eram descabidas. Francisco era um moço desempenado, simpático no trato, mas que sofria de uma certa dose de fatuidade, patente perante pessoas que o conhecessem superficialmente e o observassem com olhos mais severos que benevolentes e Catarina até estava neste caso e daí a antipatia que nutria por ele. Isabel não se cansava de lhe observar que Francisco, em família, era muito mais simples e afável do que com estranhos. E nem nunca fora menos delicado para Catarina, mas esta achava pouca afabilidade nessa delicadeza, assim como um verniz com que a jovem embirrava quase que por instinto.E nem se podia dizer que não fosse charmoso, com cabelos negros, lisos e brilhantes e uns olhos verdes num rosto um pouco pálido. No todo, era um rapaz cuja compleição física e modo de se apresentar muito agradava às meninas e às senhoras da sociedade que frequentava, que viam nele um possível bom partido se possuíssem filhas para casar.
Depois de cumprimentar polidamente as duas amigas, a convite da tia Francisco sentou-se um pouco a conversar sobre a excelência do grupo orquestral que animava aquela tarde dançante. E quando este iniciou um novo número, Francisco sentiu-se obrigado a convidar a prima para dançar. Irónica, Isabel observou-lhe que talvez devesse começar pelas convidadas, e que muito admirava a falta a esse acto da mais estrita delicadeza... ligeiramente atrapalhado, o jovem encolheu os ombros com um infeliz "Tanto faz!..." antes de se inclinar perante Catarina.pedindo-lhe uma vaga desculpa da involuntária delicadeza. Sentindo-se colocada numa situação um pouco desagradável, Catarina reagiu com uma veemência de que logo se arrependeu: - Não ligue ao que a sua prima diz! Ela conhece-me e sabe muito bem que não ligo a certas etiquetas1 Só quis entrar consigo!...
E como o rapaz insistisse, acabou por alegar cansaço e vontade de acabar o chá antes que este esfriasse.
Ao passar com o primo em direcção à pista, Isabel não se coibiu de soltar um murmúrio ao ouvido da amiga: - Ouve...Prega-lhe a partida., ao qual a rapariga fez um imperceptível sinal de assentimento. E quando a seguir, Carlos foi por ela, Catarina não opôs obstáculos e foi também dançar.
Francisco ironizou para Isabel ao vê-los: - Então a tua colega já não está cansada?
Com alguma severidade, a prima retorquiu: - Fez-te o que merecias. Agora vê lá se és indelicado ao ponto de lhe dizeres alguma coisa.
- Eu? Nem penses...
- Pagou-te indelicadeza com indelicadeza.
- Aquela menina, quando a vejo na rua,dá.me a impressão que passa a vida a fazer troça. - O rosto de Francisco tinha vincada na testa alta uma ruga de alguma contrariedade.
Com uma entoação difícil de definir, sorrindo, Isabel soltou um: - Sim?!...
- De que te ris?
- De mim, de ti, de nós... Não interessa!Acabou. Vamos atè à mesa. parece que os músicos vão fazer intervalo.
Catarina e Carlos pareciam muito divertidos. E a rapariga contou que numa incursão até à zona dos pequeninos, se sentira fortemente agarrada pela cintura e se vira em riscos de cair.Quando se voltara, furiosa com a situação, vira que era a Mimi. Quando tentava inquirir da miúda o porquê do inopinado abraço, eis que chegara o Luisinho, o filho do dr. Simões, que lhe pega na mão e a arrasta atrás dele gritando-lhe: - Anda daí! Vamos dançar1 não sejas pateta!" E a Mimi lá fora, arrastada pelo opressor,de braço no ar, fazendo vãos esforços para se libertar e acenando um vago adeus com a mãozita erguida. E Carlos e Catarina tinham rido muito com a cena entre os miúdos. "Felizmente que a Mimi não fora arrastada pelos cabelos..." . comentava ainda.
Claro que o dr. Simões de que se falava era nem mais nem menos que o professor de Português das pequenas, o que as fez descer à realidade das aulas do dia seguinte.
- E se nós contássemos isto num "caso da semana" ao dr. Simões? . troçou Isabel.
Catarina, atenta aos acordes da orquestra, interrompeu-a: - Escuta, Isabel1 São os "Beijos de fogo"!
- É mesmo! Lembras-te o que nós dançámos esta música em Pinhel. há dois anos? E mesmo no ano passado...
- Eu gosto.
- Eu também. - concordou Isabel. Carlos, que ficara por ali, convidou-a para dançar o novo número e Isabel concordou, e afastou-se com um simpático "Até já!" a Catarina e Francisco, ainda de pé, junto da mesa.
por essa altura, dona Guilhermina, que se entretinha ora a conversar, ora a dançar com pessoas amigas, aproximou-se.
- Então os meninos não dançam? Onde está Isabel?
- Saiu mesmo agora. Anda a dançar com o Carlos.