Powered By Blogger

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta alma-almas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta alma-almas. Mostrar todas as mensagens

sábado, 17 de agosto de 2019

Caminho - II

pink-peonies - ramil gapapasov

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro - te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso solitário. 
Corta os pés como a rocha dum calvário, 
 E queima como a areia!... Foi no entanto

Aguarela de ilipa Ventura- Rosto inédito

Que chorámos a dor de cada um... 
E o vinho que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

Camilo Pessanha, in Clepsidra

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Caminho - I

Tenho sonhos cruéis, n' alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na areia do futuro,
Embebido em saudades do presente...

[Imagem colhida na net]

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente.
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta de harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d' agora,

Sem ela o coração é quase nada: 
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

Camilo Pessanha, in Clepsidra




domingo, 26 de maio de 2019

..."fiquemos mudos"...




[29-08-1915]
Bocas roxas de vinho,
Testas brancas sob rosas,
Nus, brancos antebraços
Deixados sobre a mesa;

Tal seja, Lídia, o quadro
Em que fiquemos mudos, 
Eternamente inscritos
Na consciência dos deuses.

Antes isto que a vida
Como os homens a vivem,
Cheia da negra poeira 
Que erguem das estradas.

Só os deuses socorrem
Com seu exemplo aqueles
Que nada mais pretendem
Que ir no rio das coisas.

Fernando Pessoa / Ficções do Interlúdio, in Odes de Ricardo Reis




terça-feira, 21 de maio de 2019

...A Primavera esquece nos barrancos...



Jan Baptist Bosschaert  - Still Life of Flowers

Há um Poeta em mim que Deus me disse...
A Primavera esquece nos barrancos
As grinaldas que trouxe nos arrancos
Da sua efémera e espectral ledice... 

Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos...
Pobre de anseios teu ficar nos bancos 
Olhando a hora como quem sorrisse ...


Florir do dia a capitéis de Luz...
Violinos do silêncio enternecidos...
Tédio onde o só ter tédio nos seduz...

Minha alma beija o quadro que pintou...
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E cismo o seu perfil de inércia e voo...

Fernando Pessoa, in Cancioneiro - poema II de Passos da Cruz

domingo, 21 de abril de 2019

Domingo

Domingo, dia sagrado
A não sei que aspiração
De ter o corpo lavado
Desta nossa condição...
Tudo a rezar pela alma
Que não tem nem pode ter...
Tudo a pedir uma calma
Que era um crime conhecer.
 
Parece a roda da lua
Com vontade de rezar
Na quimera de uma rua
Onde às vezes faz luar.

Miguel Torga, in Poesia Completa I

terça-feira, 26 de março de 2019

Mar


Este cheiro do Mar é um convite...


Pobres Vascos da Gama, que deitavam  
a sorte ao Mar , em cima de uma prancha, 
somente porque as Índias convidavam! 

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança

*** Imagens colhidas na net.

domingo, 6 de janeiro de 2019

A fábula das três almas



«Subindo para o céu, seguiam três almas virgens. A lua abraçava-as em um raio de luar e as estrelas acendiam-se para recebê-las.
Travaram conversa.
_ Eu fui princesa - disse uma. - Sobre o meu mausoléu há uma palma de ouro e um serafim de mármore branco. Tenho saudades do meu palácio.
- Eu fui monja - disse a outra. - Sobre o meu túmulo caem os ramos das religiosas e as flores das devotas. Meu corpo está no claustro com Deus, como eu, que subo para o paraíso. Tenho saudades das harmonias místicas do órgão nos dias de festa.
E a terceira disse:
- Eu fui pastora. Meu corpo está no cemitério da aldeia. O meu noivo guarda-o e, como não é tempo de flores,  chora todas as noites sobre o meu túmulo lágrimas sinceras. Tenho saudades do meu noivo.


E uma estrela, ouvindo a conversa das almas, perguntou a outra:
- Qual é a mais feliz das três?
Suspirando, a estrela respondeu:
- A noiva, porque foi amada.»

** Toda a fábula tem, pelo menos, uma intenção.
Hoje, dia consagrado aos Reis Magos, também eles pertencendo ao mundo da fábula e à busca incessante de caminhos, encontrámos esta lenda plena de poesia e alguma, senão muita, verdade.
Encontrar uma luz no caminho de cada um de nós é algo que inspira, que dá força para lutar contra as dificuldades de uma existência difícultada por abrolhos... E isso é bom.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Assim fosse eu...


É brando o dia, brando o vento.
É brando o sol e brando o céu.
Assim fosse meu pensamento!
Assim fosse eu, assim fosse eu!


Mas entre mim e as brandas glórias
Deste céu limpo e este ar sem mim
Intervêm sonhos e memórias...
Ser eu assim, ser eu assim!


Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto!

Fernando Pessoa, in Cancioneiro[15.08.1933]




sábado, 23 de setembro de 2017

L'ETE INDIEN- [JOE DASSIN ] que antecede o outono dos amores...

Luís Romero

As cores do outono quentes, vivas,
conservam todo o sabor 
que o verão emprestou...
com as tonalidades das paixões vividas
aquecem o ar, 
 dominam os cabelos do vento
e este faz-se doce ao embalar de  manso 
tudo que é já frágil 
e anseia descanso...

 A claridade é diáfana 
as nuvens rosadas ao sol poente 
e a paz chega de uma forma quente
e aprende-se a amar as últimas rosas 
não com a ânsia sem medida
de quem é jovem e voraz 
mas dos que experimentam o outono
 dum tempo outrora pleno de promessas
e se preparam a encarar com galhardia
o mistério da morte, essa eterna ferida...

Lá vai mais uma folha ao vento 
pisada, macerada,
cumprido que foi o seu ciclo de vida...

Folhas  cansadas são as que o vento leva
  de gentes que amaram
sofreram, choraram...e sossobraram 
abraçando lúcidas, conscientes, 
 o seu sonho de amor.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Um soneto de Pessoa...



Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanta a mania de sentir
Que me extravio às vezes a sair
Das próprias sensações que eu recebo.


 O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu medo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.




Nem nunca propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu 
Serei tal qual pareço em mim? Serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?


Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente. 


Fernando Pessoa, in Ficções do Interlúdio

terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Visão"... por Fernando Pessoa


Há um país imenso mais real
Do que a vida que o mundo mostra ter
Mais do que a Natureza natural
À verdade tremendo de viver.
  

Sob um céu uno e plácido e normal
Onde nada se mostra haver ou ser
Onde nem vento geme, nem fatal 
A ideia de uma nuvem se faz crer,


Jaz - uma terra não - não há um solo
Mas estranha, gelando, em desconsolo
À alma que vê esse país sem véu,


Hirtamente silente nos espaços
Uma floresta de escarnados braços 
Inutilmente erguidos para o céu.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

quinta-feira, 20 de março de 2014

O velho palácio...


Houve outrora um palácio, hoje em ruínas,
Fundado numa rocha, à beira-mar...
Donde se avistam lívidas colinas,
E se houve o vento nos pinhais pregar.
Houve outrora um palácio, hoje em ruínas...

Nesse triste palácio inabitável,
As janelas sem vidros, contra os ventos,
Batem, de noite, em coro miserável,
Lembrando gritos, uivos e lamentos.
Nesse triste palácio inabitável... 

Só resta uma varanda solitária,
Onde medra uma flor que bate o norte,
Sacudida de chuva funerária,
Lavada de um luar branco de morte.
Só resta uma varanda solitária...

Como nessa varanda apodrecida
Em minha alma uma flor também vegeta...
Toda a noite dos ventos sacudida,
Íntima, humilde, lírica, secreta,
Como nessa varanda apodrecida....

Gomes Leal

domingo, 20 de outubro de 2013

Alma Perdida


Deus cria as almas aos pares;
Cada um dos seus olhares
É um casal que voou:
Às vezes cruzam os ares
Essas pombinhas o voo...
Mas Deus criou-as aos pares!

Partindo juntas de um ponto
Cuidam também que de pronto
Se tornam a ajuntar;
Mas andam almas sem conto
No mundo à busca de par...
Partindo juntas de um ponto!

A minha irmã, não sei dela!
Ao avistar, de uma estrela, 
Um filho ao colo da mãe...
Uma graça como aquela,
Só contemplando-se bem...
E a minha irmã não sei dela!

Levado daquele encanto
Pelo afecto mais santo
E mais profundo que há,
Não me lembrou se entretanto
Minha irmã ficava lá...
Levado daquele encanto!

Pobre de uma alma perdida
De uma irmã nesta vida,
Que é um contínuo gemer!
É uma noite comprida
Sem nunca lhe amanhecer...
Pobre de uma alma perdida!

Ainda quem sempre espera
Achar a alma sincera
Que Deus lhe deu por irmã...
Talvez ache a companheira,
Por quem suspira, amanhã...
Feliz de quem sempre espera!

João de Deus, Campo de Flores

terça-feira, 28 de maio de 2013

Abismo...


« A minha alma é um abismo cujo desejo nada jamais satisfez e que a extirpação do desejo ainda não apaziguou. Quereria poder dar-se por completo, com amor, fé, entusiasmo, e nenhum objecto pôde absorvê-la nem mesmo iludi-la. Esta aspiração imensa e confusa é uma sede que de forma alguma se extingue. [...]
Não sou, no entanto, nem um revoltado nem um submisso: nova ambiguidade. O estado inquieto, instável, indefinível, ansioso é o que eu conheço. O enigma que se reconhece enigma, o caos que se apercebe de o ser, a desordem que se segue a si própria e não ordena, definem a situação em que me encontro. E, aliás, mesmo quando a intuição atravessou e iluminou o abismo com o seu grande facho, a visão acaba por ser esquecida, em seguida confunde-se e há que recomeçar o mesmo esforço. O espírito individual não consegue ser senhor de si dentro da sua essência, talvez porque a sua essência é não ser individual. »

 Amiel

domingo, 20 de janeiro de 2013

«Solidão»...


Só, como a fonte no areal sem vida.
Só, como o sol no céu deserto.
Só, de cabeça erguida,
Humanamente certo.

Só, a nascer, a ser e a morrer,
Recto como um pinheiro que brotou
E cresceu e caiu, sem se torcer
Ao tempo vário que por ele passou.

Miguel Torga, in Diário III

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ser estranho...


«Ninguém é rigorosamente estranho a ninguém. Todos nós somos membros da mesma família humana que povoa a terra. As diferenciações que existem nos idiomas que se falam, nas raças e nas cores, são muito superficiais em comparação com o que há de essencial, que é a vida animada pela mesma substância divina e eterna que se chama Alma. Todos os homens, nasçam onde nascerem, vivam onde viverem, são filhos do mesmo Pai e, portanto, são todos irmãos.»

J.S.Nobre, in Reflexões

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A ANÉMONA DOS DIAS...




Aquele que profanou o mar
E que traiu o arco azul do tempo
Falou da sua vitória

Disse que tinha ultrapassado a lei
Falou da sua liberdade
Falou de si próprio como de um Messias

Porém eu vi no chão suja e calcada
A transparente anémona dos dias.

Sophia de Mello Breyner  Andresen 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Agonia....


Canto a pedir socorro.
A noite que atravesso é negra, e tenho medo.
Mas nem sequer o eco 
Da minha voz
Vem ter comigo
E dar-me confiança.
Cala-se, ou foge  noutra direcção,
Ansioso, ele próprio, de encontrar abrigo
E segurança.
 E o canto vai crescendo de aflicção
À medida que aumenta a escuridão
E o meu terror avança.

Miguel Torga, in Diário X

terça-feira, 3 de abril de 2012

Oferenda...


A minha mulher

Romam tu mihi sola facis.
 MART. LIV. XII. EPIGR. XIX


Folhas mortas de Outono ou de Inverno precoce,
No teu regaço amigo, estes versos deponho,
Para que o teu amor lhes dê vida e remoce,
Porque a Arte começa e acaba num sonho...
É pouco; mas eu torno a homenagem mais bela,
Pondo, como uma flor, nas folhas sem aroma,
O verso em que Marcial diz à Esposa Marcela:
Tu, tu só, para mim, vales mais do que Roma!

António Feijó, Sol de Inverno

sábado, 31 de março de 2012

Dissonâncias


Pedra a pedra
a casa vai regressar.
Já nos ombros sinto o ardor
da sua navegação.

Vai regressar
 o silêncio com as harpas.
As harpas com as abelhas.

No verão, morre-se
tão devagar à sombra dos ulmeiros!

Direi então:
Um amigo
é o lugar da terra
onde as maçãs brancas são mais doces.

Ou talvez diga:
O outono amadurece nos espelhos.
Já nos meus ombros sinto
a sua respiração.
Não há regresso: tudo é labirinto.

Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio