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quinta-feira, 19 de abril de 2012
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Quando te disse ao ouvido...
Quando te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado -
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado...
Quem te disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia...
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido levemente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?...
Foi um desejo que sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca ~
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.
Fernando Pessoa, Cancioneiro
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Arco-íris

No arco-íris de um país estranho
O milagre de Pã aconteceu,
Num alento de vida, dom tamanho,
Bafejando o corpo que foi teu.
Tudo é secreto e lindo se a harmonia
Existe entre o pensar e o sentir;
Se puder dar à nossa fantasia
Alimento feito de arte a eclodir.
Quedo toda enlevada na beleza
De tempos que passaram, de quimeras,
A tentar recriar um amanhã...
E gosto de penetrar com singeleza
Todo esse universo de outras eras
De que sei zombaria o meu deus Pã.
Sophia Guiomar, Poemetos
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Pinóquio, a Fada Azul e o Grilo falante


Quando criança, a história de Pinóquio impressionou-me muito pela negativa, porque, aquele boneco fútil e brincalhão, só tarde e más horas se apercebeu que o que era mais importante na vida era saber amar. Nem era já tanto ser amado, mas aprender a amar de uma forma responsável. Para isso, a Fada Azul, aquela fadinha com varinha de condão e tudo, até lhe arranjou uma espécie de prefeito para o chamar à razão e lhe mostrar o caminho mais justo que não magoaria o afecto bondoso e tolerante do pai Gepeto.
Mas o tonto boneco não tinha emenda: faltava às aulas, só vivia para a brincadeira e, para fugir às responsabilidades, mentia descaradamente.O castigo era ver crescer o nariz de forma cruel, mas nem assim ganhava juízo, porque a mentira vivia como cupim no cerne da madeira de que fora feito.
Aquelas rocambolescas aventuras em que se metia não me faziam mossa - não me impressionavam nadinha. Comigo pensava que era bem feita e que tinha o que merecia porque não acatava os conselhos nem do pai, nem da madrinha e ainda menos da sua consciência, aquele pobre mentor de fraque e guarda-chuva que lhe fora disponibilizado e a quem, na hora da verdade, sempre deixava "a falar para o boneco" para fazer o que bem lhe apetecia.
De toda aquela história, de que verdadeiramente não gostava, havia duas, ou melhor, três coisas, que invejava ao atravessado herói: ter uma fada madrinha que se disponibilizava a ajudá-lo; uma consciência que lhe mostrava o caminho recto e ter um pai que, além de o ter criado do nada, ainda por cima era uma doçura de pessoa.
Se é certo que a Fada Azul o transformara quase em menino e lhe dera o dom da fala para alegrar a solidão de Gepeto, também era verdade que possuía uma varinha mágica. E os poderes daquela varinha mostravam-me maravilhosas perspectivas que se prendiam com beleza, bondade e justiça que, muito cedo, começara a distinguir e a reconhecer, sonhando-as.
Depois a pequenez do Grilo falante e o seu aspecto engraçado, aliados aos sábios juízos que emitia, faziam-me lembrar que se tivesse assim um bichinho daqueles que conversasse comigo nas longas horas em que brincava só, alertando-me para não cometer tolices, me pouparia ruidosos ralhos e desmesuradas sovas ao longo do dia e dos dias, porque eu era assim um bombo de pancada nas mãos de minha mãe. E esse aspecto era muito, muito importante, porque as pancadas doíam mesmo e os ralhos me perfuravam os tímpanos.
Por último,havia a forma carinhosa como Gepeto o tratava, suportando-lhe as traquinices, e conversando e dançando com ele.Aí via a diferença entre ele e um pai que coadjuvava a mãe nos ralhos nas poucas horas em que se encontrava em casa, além de frequentes vezes lhe ocupar cruelmente o triciclo robusto que não partia porque era feito de ferro pesado e madeira grossa e dura. As rodas chiavam então sob o seu peso e eu quedava-me admirada porque a mãe não aparecia a protestar contra o barulho que as rodas, também em ferro, faziam, chiando num louco frenesim de sons, no empedrado cimentado da larga entrada da casa. Tinha mesmo má vontade contra o pai nessas alturas, porque me privava de usufruir de um bem demasiadas vezes vedado, ou como castigo por alguma tolice, ou para não provocar o tal barulho que tanto contendia com o frágil sistema nervoso da mãe.
Acho que no meio de tudo isto só desculpava um pouquinho o Pinóquio por mentir. Era criança e aquela vontade de fazer diabruras e querer fugir depois às responsabilidades... era uma enorme tentação! As crianças são geralmente mitónomas até por volta dos catorze anos, mas eu cedo aprendi que ser apanhada numa mentira era sempre mais grave para mim do que assumir a verdade do facto, porque,se apanhada, além de uma tareia, ainda levava com uma boa camada de pimenta na língua que me deixava numa aflição sem nome.
Ora o Pinóquio além de não levar açoites, não tinha de suportar a pimenta...
Hoje penso como, pela vida fora, o meu amor à verdade me acarretou quantos reais transtornos!...quando crescer o nariz teria sido para mim, tanto em criança, como em adulta, o menor dos problemas?...
Vendo bem, o boneco Pinóquio ainda hoje me não é de todo simpático, porque, além de tudo o mais, ser uma Fada Azul ou um Grilo ajuizado, ou mesmo uma figura ternurenta como Gepeto, me daria muito mais prazer por poder contribuir para tornar o meu mundo bem melhor do que o que conheci em menina e ainda hoje conheço.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Natália Correia - 1955
Louise Jopling, 1896 - Azul e Branco
Auto-retrato
Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio de um corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.
Natália Correia, Poemas [1955]
quinta-feira, 25 de junho de 2009
O segredo da Busca

O segredo da Busca é que não se acha.
Eternos mundos infinitamente,
Uns dentro de outros, sem cessar decorrem
Inúteis; Sóis, Deuses, Deus dos Deuses
Neles intercalados e perdidos
Nem a nós encontramos no infinito.
Tudo é sempre diverso e sempre adiante
De [Deus] e Deuses: essa, a luz incerta
Da suprema verdade.
Fernando Pessoa, Obra Poética - Poemas Dramáticos - Primeiro Fausto - Primeiro Tema
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