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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Palavras e silêncio...


O silêncio é a minha maior tentação.

(...)
 As palavras, esse vício ocidental, 
estão gastas. envelhecidas, envilecidas.
 Fatigam, exasperam.
E mentem, separam,  ferem.  


 Também apaziguam, é certo, mas é tão raro! 


 Por cada palavra que chega até nós,
 ainda quente das entranhas do ser, 
quanta baba nos escorre em cima
 a fingir de música suprema!





 A plenitude do silêncio
 só os orientais a conhecem!
 Lao Tsé ensinou
 que quem sabe não fala
 e quem fala não sabe.(...)

Eugénio de Andrade, in Poesia e Prosa: Rosto Precário

*** Formatação da responsabilidade de Msilva.

sábado, 12 de janeiro de 2019

"Se alguém mentiu..."


Se alguém mentiu, não fui eu.
 - Eu vinha alegre e cantava.
Se alguém mentiu foi o Sol,
se alguém mentiu foi o Mar,
que ficavam tristes, tristes,
à medida que eu cantava.

Se alguém mentiu não fui eu.
 - Se alguém mentiu, foi o Céu:
era azul e fez-se pardo,
como se fosse da Morte
que a minha boca falava.

Eu vinha alegre e cantava.
Tudo, à volta, escurecera. 
Se havia naquele dia
qualquer palavra sincera,
da minha boca saía.

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Mentira...





Mentira passada
foi enredo?
Ou medo?
Não foi nada. 
Agora, tem afluências
e confluências.
Carta hidrográfica incoerente
e sem fim.
Do rio-mentira com sua nascente,
do rio-ameaça
que se abraça
em mim.

Fernanda Botelho, As Coordenadas Líricas

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Quando te disse ao ouvido...


Quando te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado - 
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado...
Quem te disse tão cedo?

Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia...
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?

Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?

Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido levemente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?...

Foi um desejo que sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca ~
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.

Fernando Pessoa, Cancioneiro


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

«Não sei se dor...»

Não sei se dor
Ou muito amor
Eu sinto.

Mas isto é maior do que a morte;
Não posso mais.
Eu minto.

Ruy Cinatti, Anoitecendo, a Vida Recomeça

terça-feira, 14 de junho de 2011

Discurso de um príncipe...


[...] Possível é que estejais esperando de mim coisas inauditas, aqueles de vós que principalmente apreciam não o fundo simples e rico do quer que seja, mas a singularidade das palavras, dos discursos, das teorias. Palavras!, discursos!, teorias! O mundo está cheio de palavras, discursos e teorias porque é preciso tapar as covas... esconder os abismos. Mas as obras? Onde estão as obras autênticas (não a sua aparência!), e os corações sinceros e ardentes [não a sua caricatura!)? Quem inicia a reforma que as suas palavras exigem? Por incúria, por egoísmo, por obstinação, por dureza, por fraqueza, por frivolidade, por todos os nossos defeitos que passamos a vida a esconder, não a tentar corrigir, sim a esconder, e no entanto saltam à vista de todos menos à de cada um de nós próprios - todos nós, vossos governantes, desconhecemos a vossa verdadeira vida, as vossas verdadeiras necessidades, as vossas verdadeiras virtudes, os vossos verdadeiros vícios... E ocultamos o nosso desconhecimento com imagens brilhantes, com atitudes imponentes, com gestos espectaculares... talvez como este mesmo que tenho agora!
 Servimos as nossas ambições, os nossos interesses, as nossas manias, o nosso amor.próprio, e dizemos servir-vos a vós, à pátria e à humanidade.
 Chegamos a crer nós mesmos nesta farsa, cegamos a ponto de já não vermos o papel que estamos representando.
Disto acuso os vossos reis, os vossos príncipes, os vossos ministros, os vossos representantes, os vossos mentores, disto me acuso a mim próprio!
 Qual de nós vai entre vós conhecer-vos? Qual é bastante sincero para se exprimir em público como diante da sua consciência? Qual suficientemente humano para confessar um erro e tentar emendá-lo?
Bem sei!, dizem que seria má política e má táctica.
Dizem que isso abalaria a ordem, a disciplina, o respeito dos subordinados pelos superiores.
Dizem que as tramóias dos deuses não podem ser escancaradas ao vulgo.
Dizem que a mentira, a astúcia, a duplicidade são necessárias ao governo do mundo.
Assim dizem e em consequência procedem: [...]

José Régio; O Príncipe com Orelhas de Burro, cap.XVI

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Pinóquio, a Fada Azul e o Grilo falante





Quando criança, a história de Pinóquio impressionou-me muito pela negativa, porque, aquele boneco fútil e brincalhão, só tarde e más horas se apercebeu que o que era mais importante na vida era saber amar. Nem era já tanto ser amado, mas aprender a amar de uma forma responsável. Para isso, a Fada Azul, aquela fadinha com varinha de condão e tudo, até lhe arranjou uma espécie de prefeito para o chamar à razão e lhe mostrar o caminho mais justo que não magoaria o afecto bondoso e tolerante do pai Gepeto.
Mas o tonto boneco não tinha emenda: faltava às aulas, só vivia para a brincadeira e, para fugir às responsabilidades, mentia descaradamente.O castigo era ver crescer o nariz de forma cruel, mas nem assim ganhava juízo, porque a mentira vivia como cupim no cerne da madeira de que fora feito.
Aquelas rocambolescas aventuras em que se metia não me faziam mossa - não me impressionavam nadinha. Comigo pensava que era bem feita e que tinha o que merecia porque não acatava os conselhos nem do pai, nem da madrinha e ainda menos da sua consciência, aquele pobre mentor de fraque e guarda-chuva que lhe fora disponibilizado e a quem, na hora da verdade, sempre deixava "a falar para o boneco" para fazer o que bem lhe apetecia.
De toda aquela história, de que verdadeiramente não gostava, havia duas, ou melhor, três coisas, que invejava ao atravessado herói: ter uma fada madrinha que se disponibilizava a ajudá-lo; uma consciência que lhe mostrava o caminho recto e ter um pai que, além de o ter criado do nada, ainda por cima era uma doçura de pessoa.
Se é certo que a Fada Azul o transformara quase em menino e lhe dera o dom da fala para alegrar a solidão de Gepeto, também era verdade que possuía uma varinha mágica. E os poderes daquela varinha mostravam-me maravilhosas perspectivas que se prendiam com beleza, bondade e justiça que, muito cedo, começara a distinguir e a reconhecer, sonhando-as.
Depois a pequenez do Grilo falante e o seu aspecto engraçado, aliados aos sábios juízos que emitia, faziam-me lembrar que se tivesse assim um bichinho daqueles que conversasse comigo nas longas horas em que brincava só, alertando-me para não cometer tolices, me pouparia ruidosos ralhos e desmesuradas sovas ao longo do dia e dos dias, porque eu era assim um bombo de pancada nas mãos de minha mãe. E esse aspecto era muito, muito importante, porque as pancadas doíam mesmo e os ralhos me perfuravam os tímpanos.
Por último,havia a forma carinhosa como Gepeto o tratava, suportando-lhe as traquinices, e conversando e dançando com ele.Aí via a diferença entre ele e um pai que coadjuvava a mãe nos ralhos nas poucas horas em que se encontrava em casa, além de frequentes vezes lhe ocupar cruelmente o triciclo robusto que não partia porque era feito de ferro pesado e madeira grossa e dura. As rodas chiavam então sob o seu peso e eu quedava-me admirada porque a mãe não aparecia a protestar contra o barulho que as rodas, também em ferro, faziam, chiando num louco frenesim de sons, no empedrado cimentado da larga entrada da casa. Tinha mesmo má vontade contra o pai nessas alturas, porque me privava de usufruir de um bem demasiadas vezes vedado, ou como castigo por alguma tolice, ou para não provocar o tal barulho que tanto contendia com o frágil sistema nervoso da mãe.
Acho que no meio de tudo isto só desculpava um pouquinho o Pinóquio por mentir. Era criança e aquela vontade de fazer diabruras e querer fugir depois às responsabilidades... era uma enorme tentação! As crianças são geralmente mitónomas até por volta dos catorze anos, mas eu cedo aprendi que ser apanhada numa mentira era sempre mais grave para mim do que assumir a verdade do facto, porque,se apanhada, além de uma tareia, ainda levava com uma boa camada de pimenta na língua que me deixava numa aflição sem nome.
Ora o Pinóquio além de não levar açoites, não tinha de suportar a pimenta...
Hoje penso como, pela vida fora, o meu amor à verdade me acarretou quantos reais transtornos!...quando crescer o nariz teria sido para mim, tanto em criança, como em adulta, o menor dos problemas?...
Vendo bem, o boneco Pinóquio ainda hoje me não é de todo simpático, porque, além de tudo o mais, ser uma Fada Azul ou um Grilo ajuizado, ou mesmo uma figura ternurenta como Gepeto, me daria muito mais prazer por poder contribuir para tornar o meu mundo bem melhor do que o que conheci em menina e ainda hoje conheço.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Engano


Jurámos fidelidade:
Tu por mim e eu por ti...
Mas tu faltaste à verdade
E eu também te menti!

Porque as juras que fizemos
Não vinham do sentimento
O laço que desfizemos
Não nos causou sofrimento...

Uma afeição
Sem coração
Não tem valor!
Assim viveu
E assim morreu
O nosso amor.

Ardente paixão jurámos
Para além da eternidade.
No romance que acabámos
Faltava a sinceridade...

A mim te uniu a mentira
Mas ela nos apartou.
E de tudo o que existira
Nem a saudade ficou...

Uma afeição
Sem coração
Não tem valor!
Assim morreu
E assim viveu
O nosso amor...

M. Pissarra de Almeida