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quinta-feira, 23 de maio de 2019

Conta-me contos...

[23-05-1916]
Não sei, ama, onde era,
Nunca o saberei...
Sei que era primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...)

Que azul tão azul tinha
Ali o azul do céu!
Se eu não era a rainha, 
Porque era tudo meu?
(Filha, quem o adivinha?)


E o jardim tinha flores 
De que não me sei lembrar... 
Flores de tantas cores.... 
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos são dores...)


Qualquer dia viria
Qualquer coisa a fazer
Toda aquela alegria
Mais alegria nascer
( Filha, o resto é morrer...)


Conta-me contos, ama... 
Todos os contos são
Esse dia, e jardim e a dama 
Que eu fui nessa solidão...

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

sexta-feira, 8 de março de 2019

"Carta anónima"


Não sabe a flor quem manda a luz do dia, 
Nem quem lhe esparge  o néctar que a deleita 
Ao vir raiando a aurora;
E ela agradece as lágrimas que aceita,
E ela as converte em bálsamos que envia 
Ao mistério, que adora!

LAMARTINE,-tradução de João de Deus, in Campo de Flores