Powered By Blogger

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Torga. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Torga. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Sombras...

Clemência


Não me posso julgar como juiz.
Tenho que ter a humana caridade
De não ouvir apenas o que diz
A verdade.

Também a minha sombra tem razão.
Também ela
Anda comigo e vela
Enquanto o sol me vai colando ao chão.

Miguel Torga, in Poesia Completa I

sexta-feira, 30 de março de 2018

"Páscoa"...



Anho do sacrifício
Que o ritual impõe,
É um balido discreto que lhe pedem
Homens e deuses, feras fraternais:
Que o perfume 
Dum lírico queixume 
Enterneça os fiéis sentimentais.



Mas o cordeiro agónico protesta.
E a paz familiar da festa
É perturbada.
Sem qualquer conivência,
A violência
Tem de ser friamente consumada.

Junta-se então,
No altar da imolação,
A pura crueldade
À impura liturgia.
E o sangue do poeta assassinado,
A correr como um verso derramado,
É um hino rubro à eterna rebeldia.

Miguel Torga, in «Câmara Ardente», 1962

sexta-feira, 23 de março de 2018

"Lamento"...



Nem tu, amor, me deste aquele sossego
Que te pedi!
No grande cais da vida onde aportei
Eram tantos os braços e os acenos
Que me cansei
A responder a todos, e a nenhum...


Puras miragens, puros impossíveis,
Um a um
Foram morrendo, sem deixar ao menos
Traços visíveis
Da ilusão fugaz.
E ali fiquei, de coração vazio,
À espera de chegar outro navio...
E sem paz.


Miguel Torga, in «Penas do Purgatório»-1954

sábado, 12 de agosto de 2017

«Eternidade»... por Miguel Torga

Coimbra, 4 de Outubro de 1945


A vida passa lá fora, 
Ou na pressa de uma roda,
Ou na altura de uma asa,




Ou na paz de uma cantiga; 
E vem guardar-se num verso 
Que eu talvez amanhã diga.

in  »Nihil Sibi»,1948

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

NATAL...


São Martinho De Anta, Natal de 1948
  
Devia ser neve humana
A que caía no mundo
Nessa noite de amargura
Que se foi fazendo doce...
Um frio que nos pedia
Calor irmão, nem que fosse
De bichos de estrebaria.

Miguel Torga, Poesia Completa I

A todos os Amigos, desejo um Bom e Santo Natal de 2014.

domingo, 16 de junho de 2013

Universalidade


Aqui declaro que não tem fronteiras.
Filho da sua pátria e do seu povo,
A mensagem que traz é um grito novo,
Um metro de medir coisas inteiras.

Redonda e quente como um grande abraço
De pólo a pólo, a sua humanidade,
Tendo raízes e localidade,
É um sonho aberto que fugiu do laço.

Vento da primavera que semeia
Nas montanhas, nos campos e na areia
A mesma lúdica semente,

Se parasse de medo no caminho,
Também parava a vela do moinho
Que mói depois o pão de toda a gente.

Miguel Torga 

domingo, 20 de janeiro de 2013

«Solidão»...


Só, como a fonte no areal sem vida.
Só, como o sol no céu deserto.
Só, de cabeça erguida,
Humanamente certo.

Só, a nascer, a ser e a morrer,
Recto como um pinheiro que brotou
E cresceu e caiu, sem se torcer
Ao tempo vário que por ele passou.

Miguel Torga, in Diário III

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Simplicidade...


Porque o amor é simples,
Vale a pena colhê-lo.
Nasce em qualquer degredo,
Cria-se em qualquer chão.
Anda, não tenhas medo!
Não deixes sem amor o coração!

Miguel Torga, Diário III

domingo, 16 de dezembro de 2012

«Natal»...


Natal fora da casa de meu Pai,
Longe da manjedoira onde nasci.
Neve branca também, mas que não cai
Na telha-vã da infância que perdi.

Filosofias sobre a eternidade;
Lareiras de salão, civilizadas;
E eu a tremer de frio e de saudade
Por memórias em mim quase apagadas...

Miguel Torga, in Diário VI