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quinta-feira, 4 de julho de 2019

"Amargo estilo novo"


Tudo é fácil quando se está a brincar com a flor entre os dedos,
quando se olham nos olhos as crianças,
quando se visita no leito o amor convalescente.
É bom ser flor, criança ou ser doente.
Tudo são terras donde brotam esperanças,
pétalas, tranças,
a porta do hospital aberta à nossa frente.

Desde que nasci que todos me enganam, 
em casa, na rua, na escola, no emprego, na igreja, no quartel, 
com fogos de artifício e fatias de pão besuntadas com mel.
E o mais grave é que não me enganam com erros nem com falsidades 
mas com profundas, autênticas verdades.

E é tudo tão simples quando se rola a flor entre os dedos! 
Os estadistas não sabem,
mas nós, os das flores, para quem os caminhos do sonho não guardam segredos, 
sabemos isso e todas as coisas mais que nos livros não cabem.

António Gedeão, in Poesias Completas


domingo, 19 de maio de 2019

Cuidar do seu jardim...


Surge a primeira flor ... uma possível romã... Um encanto!...
Porém, dizem que ainda vai ser mais bonita... Estou curiosa.



quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

I - Tu não és...



[...]
Tu não és mulher.(...)É quando falo de ti que as palavras te chamam fêmea, e as expressões te contornam de mulher. Porque tenho de te falar com ternura e amoroso sonho, as palavras encontram voz para isso apenas em te tratar como feminina.
Mas tu, na tua vaga essência não és nada. não tens realidade, nem mesmo uma realidade / só / tua. Propriamente, não te vejo, nem mesmo te sinto.´És como que um sentimento que fosse o teu próprio objecto e pertencesse todo ao íntimo de si-próprio. És sempre a paisagem que eu estive quase para (poder) ver, perdido num eterno Agora para além da curva do caminho. O teu perfil é não seres nada, e o contorno do teu corpo irreal desata em pérolas separadas o colar da ideia de contorno. Já passaste, e já foste, e já te amei - o sentir-te presente é sentir isto.
Ocupas o intervalo dos meus pensamentos e os interstícios das minhas sensações. Por isso eu não te penso nem te sinto, mas os meus pensamentos são / opiais/ de te sentir, e os meus sentimentos góticos (?) de evocar-te.
[...]
Bernardo Soares( heter.  de F. Pessoa), in Livro do Desassossego

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Sombras...

Clemência


Não me posso julgar como juiz.
Tenho que ter a humana caridade
De não ouvir apenas o que diz
A verdade.

Também a minha sombra tem razão.
Também ela
Anda comigo e vela
Enquanto o sol me vai colando ao chão.

Miguel Torga, in Poesia Completa I

Busca da verdade...


A montanha por achar
Há de ter, quando a encontrar,
Um templo aberto na pedra
Da encosta onde nada medra.

O santuário que tiver,
Quando o encontrar, há-de ser 
Na montanha procurada
E na gruta ali achada.

A verdade, se ela existe,
Ver-se-á que só consiste
Na procura da verdade,
Porque a vida é só metade.

Fernando Pessoa, in Inéditos

domingo, 13 de janeiro de 2019

O rouxinol e a Noite...

Cantilena



Cortaram as asas 
ao rouxinol.
Rouxinol sem asas
não pode voar.


Quebraram-te o bico,
rouxinol!
Rouxinol sem bico 
não pode cantar.


Que ao menos a Noite 
ninguém, rouxinol!,
ta queira roubar.
Rouxinol sem Noite 
não pode viver,

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança

sábado, 12 de janeiro de 2019

"Se alguém mentiu..."


Se alguém mentiu, não fui eu.
 - Eu vinha alegre e cantava.
Se alguém mentiu foi o Sol,
se alguém mentiu foi o Mar,
que ficavam tristes, tristes,
à medida que eu cantava.

Se alguém mentiu não fui eu.
 - Se alguém mentiu, foi o Céu:
era azul e fez-se pardo,
como se fosse da Morte
que a minha boca falava.

Eu vinha alegre e cantava.
Tudo, à volta, escurecera. 
Se havia naquele dia
qualquer palavra sincera,
da minha boca saía.

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A filosofia sobre as cousas...


Todas as ideias que há sobre a natureza
Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das cousas
Nunca foi cousa em que pudesse pegar como nas cousas;


Se a ciência quer ser verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?


Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem.
Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas.

Fernando Pessoa[29/05/1918] in Poemas Completos de Álvaro de Campos

sábado, 23 de setembro de 2017

L'ETE INDIEN- [JOE DASSIN ] que antecede o outono dos amores...

Luís Romero

As cores do outono quentes, vivas,
conservam todo o sabor 
que o verão emprestou...
com as tonalidades das paixões vividas
aquecem o ar, 
 dominam os cabelos do vento
e este faz-se doce ao embalar de  manso 
tudo que é já frágil 
e anseia descanso...

 A claridade é diáfana 
as nuvens rosadas ao sol poente 
e a paz chega de uma forma quente
e aprende-se a amar as últimas rosas 
não com a ânsia sem medida
de quem é jovem e voraz 
mas dos que experimentam o outono
 dum tempo outrora pleno de promessas
e se preparam a encarar com galhardia
o mistério da morte, essa eterna ferida...

Lá vai mais uma folha ao vento 
pisada, macerada,
cumprido que foi o seu ciclo de vida...

Folhas  cansadas são as que o vento leva
  de gentes que amaram
sofreram, choraram...e sossobraram 
abraçando lúcidas, conscientes, 
 o seu sonho de amor.

sábado, 15 de julho de 2017

Os girassóis na tarde...




levemente os girassóis estremecem
na tarde onde a brisa se quedou


no alto, o sol é uma brasa,
 é lume
as abelhas gigantes cansam o ar
volitando incessantes
de asas douradas pela claridade
e buscam néctar em cada flor aberta


as aves escondem-se sob as copas roçagantes
piam levemente e em surdina

o céu é de um azul ferrete
onde pequenas nuvens se destacam

no meu interior escuro e tépido
nem a sombra de um abraço
faz doer o silêncio

o calor lá de fora não permite
a saudade.

sábado, 6 de dezembro de 2014

dias de outono


 esvazio-me à claridade amorfa do dia
                                                             lento
                                                             morno

sonho 
revolta
         ou esperança
          tornam-se palavras vãs
          desintegradas de sentido
                                       amarfanhadas
                                     sucumbidas


só
a beleza de uma fresca
                                                             perfumada rosa
                                    produz vida 
               a cada raiar de incontornáveis 
                                  e cinzentos 
                                      dias de outono
          
quando ainda me tocam
                                     pela beleza pura 
                               que irradiam



sonhos adiados de um estio 
                                                                    nunca acontecido 
                                                                                  murcho 
     asas de borboleta entontecida 
                                                                          em esplendor
                                                                                         ao calor
           
                                        o frio é a sensação desgarrada de corrupto sentido
                                        o  calor - o som antitético de lareira
                                                                                       mesmo que a lareira exista


                                       e o silêncio dorme no coração da noite 
                                       
                                       dias-cinza fenecem na aguda
                                                                                 dolorida
                                                                                 sensação de ser.
                                                                                                      
                                                                                                        Myrtô, 2014
                                                                                                   












sábado, 17 de novembro de 2012

Arte e Verdade...


    A mentira e o dever são irmãos gémeos.
    Quando naturalmente, por instinto, nós fugimos ao código e à moral, ela aparece-nos, máscara doirada, para esconder a responsabilidade. Mas há outra, a mentira criadora, que é a asa do Sonho e da Beleza. Os filósofos chamam-lhe: - Verdade...

António Patrício, in Serão Inquieto - Words