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sexta-feira, 11 de abril de 2014

ODE...


Nuvens tocadas pelos ventos, ide!
Lá para além de vós, o céu não passa.
Contra as rochas erguidas e paradas,
Desfazei-vos na vossa eterna lide,
Ondas!, flocos de espumas encrespadas...

Que a praia, não há onda que a desfaça.

Desfolhai-vos nas ondas do tufão,
Rosas inda em botão esta manhã,
Folhas aos velhos troncos arrancadas!
Cinzas levais, só cinza!, em vossa mão,
Tempestades futuras e passadas!

Sobre a semente a vossa fúria é vã.

Decorrei, dias meus já sem sentido
Senão o de ficar, que não é vosso.
Dissolveis-vos no ar, mãos revoltadas!
Gestos, formas, visões, sons, pó erguido,
Voltai ao pó das tumbas ignoradas!...

Que não se apaga a luz de além do poço.

Sou, como as nuvens que nada são,
E as ondas frágeis como vãs quimeras,
E as pétalas e as folhas desfolhadas,
E as formas fogos-fátuos da ilusão...
Correi, lágrimas fúteis enganadas!

Mas tu canta, minh' alma!, enquanto esperas.

José Régio, [1901-1969]

sábado, 31 de dezembro de 2011

CANÇÃO


Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.

Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.

Eugénio de Andrade, Palavras Interditas

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

FOME

Pudessem minhas mãos falar às tuas
e dizer-lhes: sim, quero-te muito.
Pudesse eu inundar-te de ternura
e no silêncio ter-te, ampla e desnuda.
Que eu não faria versos sobre mim,
nem falaria em rosas, alma, lua.

Pudesse o meu olhar adormecer-te,
colher-te, fresca e firme, a forma viva.
Que coisas não faria nesta vida?
Que coisas não seria?

João Rui de Sousa, Circulação

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

«Tuas palavras...»

Tuas palavras antigas
Deixei-as todas, deixei-as,
Junto com as minhas cantigas,
Desenhadas nas areias.

Tantos sóis e tantas luas
Brilharam sobre essas linhas,
Das cantigas - que eram tuas -
Das palavras - que eram minhas!

O mar, de língua sonora,
Sabe o presente e o passado.
Canta o que é meu, vai-se embora;
Que o resto é pouco e apagado.

Cecília Meirelles

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Amor

De um amor morto
sepultado no tempo
surge em condensação
duma afeição rara
a beleza do abraço
mais íntimo
mais voraz
mais nu

O arco-íris risca no firmamento
o desafio ao Sol
Brilha o luar mais do que a Lua
Sente-se o perfume da rosa
e não a rosa
É poesia a silenciosa
distância entre a emoção
e o seu canto

É poema ainda o já poema?

O amor talvez seja o que do nada resta.

Merícia de Lemos


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Desabafo...


Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é a coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

Jorge de Sena, As Evidências

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Folhas ao vento


[...]
Desfolhai-vos nas asas do tufão,
Rosas inda em botão esta manhã,
Folhas aos velhos troncos arrancadas!
Cinzas levais, só cinzas!, em vossa mão,
Tempestades futuras e passadas!

Sobre a semente, a vossa fúria é vã.
[...]

José Régio, Mas Deus é Grande, in Ode

terça-feira, 13 de julho de 2010

Encantamento



Belo e forte é o meu amado.

O melhor entre dez mil.

Na sua cabeça de ouro fino

os cabelos são cachos

negros como negras asas.


E os olhos são pombas

banhando-se nas vertentes;

pombas salpicadas de brilho

junto das águas correntes.


Seu rosto é um jardim de ervas

que exalam perfumes;

e os lábios, quais lírios

destilando mirra pura.

As mãos são algemas de ouro

revestido com pedras de Tarsis;

seu busto, um bloco de marfim

recoberto de safiras,

e as pernas, colunas de alabastro

erguidas sobre ouro fino.


Todo ele é magnífico,

como os cedros do Líbano.

O dizer na sua boca é suave

e tudo nele é desejável.


Assim é o meu amigo,

o meu amado.




Fragmento de:

Cântico dos Cânticos de Salomão

quinta-feira, 29 de abril de 2010

As rosas da ternura




São as rosas da ternura, dos múltiplos cansaços,
Florescendo à luz , estranhamente vivas,
Pendentes da melodia dos espaços,
Silentes na alegria e enternecidas.

Vão florir para ti ao som dos rouxinóis,
Vão sentir-se vaidosas de as olhares.
Luminescer ao calor, quais girassóis,
E recolher garras para as agarrares.

E no jardim do encanto onde cresceram
Um fogo ansioso tremeluz e arde
Daquele jeito com que te conheceram:
E são bênçãos de amor no cair da tarde.
.

No beijo etéreo e casto do luar
Vogam suspiros vagos de quebranto...
É amor o que exala cada flor.
É a alma esquecida do seu pranto.

Sophia Guiomar, Poemetos

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Apenas voz




Ao abrir uma janela para a vida
Jorraste como luz e alegria
Na minha solidão.

Não procurei encontrar a ilusão
Mas ela veio
Qual melodia
Na voz entontecida
Pelo desejo orgásmico
Do ardor
Esvaziado
Em morna despedida.

Deixou de apetecer
Cantar a vida
Deixar-se morrer.

Cativada, a lua chorou
Adormeceu cansada
Meditou...

Palpitante,
A solidão cantou.


Sophia Guiomar, Poemetos[2010-01-09]

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Nosso livro



Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito.
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguèm! Só meu. Só teu.
Num sorriso dizes tu e digo eu:
Versos só nossos, mas que lindos sois!

Ah! Meu amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
Versos só nossos, só de nós os dois!...

Florbela Espanca





quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O segredo é amar


Fosse mais bela a Vida e mais sincera...
Como eu lhe quero mesmo assim!
Tanto lhe dei de mim
que já é menos acre do que fora.

Ah!, bem me parece que o Amor melhora
quanto a graça de Deus não fez bonito.
Há lá coisa mais linda do que um grito
quando foi o Amor que o pôs cá fora!...

Deixa ser o meu gesto uma grinalda
nos teus cabelos, Vida!
Deixa que o meu olhar enflore teus olhos.

Adeus, adeus teus dedos ásperos!
Adeus teu rictus doloroso!
- Vida, quem é a minha namorada?

Sebastião da Gama




quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Apenas uma rosa


Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfazia,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!

Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora
de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa...

CecíliaMeireles


Só deixarei de te amar
quando o véu da noite
envolver os meus olhos
e em minha sepultura
nascer um cravo branco,
cujas pétalas estarão
escritas
em gotas de sangue...

Eu ainda te amo!

Vinícius de Morais






quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Aniversário



Não são as rugas que nos fazem velhos
Nem o tempo que faz envelhecer.
A alma não se marca nos espelhos
Nem é feto de rugas o morrer.

Não se é velho enquanto por abrir
Rosas-desejos cada um tiver!
Enquanto houver promessas por cumprir
Ou nos lábios palavras por dizer.

Não é ser velho o ter passado os dias
Se pensarmos nos dias por passar.
Ser velho - é não ter mais alegrias
E nem sequer a esperança de as achar.

A alma não se marca nos espelhos
Nem é feito de rugas o morrer!
- Não são as rugas que nos fazem velhos,
Nem o tempo quem faz envelhecer!

Jorge Vila

terça-feira, 18 de agosto de 2009

"Sofia"... a sabedoria

Criar um dia puro...

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen [ No Tempo Dividido]

domingo, 16 de agosto de 2009

Como uma flor incerta...


Como uma flor incerta...

I

Como uma flor incerta entre os teus dedos
Há a harmonia dum bailar sem fim,
E tens o Silêncio indizível dum jardim
Invadido de luar e de segredos.

II

Nas tuas mãos trazias o meu mundo.
Para mim dos teus gestos escorriam
Estrelas infinitas, mar sem fundo
E nos teus olhos os mitos principiam.

Em ti eu conheci jardins distantes
E disseste-me a vida dos rochedos
E juntos penetrámos nos segredos
Das vozes dos silêncios dos instantes.

III

Os teus olhos escorrem como fontes,
E em todo o teu ser existe
O sonho grave, nítido e triste
Duma paisagem de pinhais e montes.

Na tua voz as paisagens são nocturnas
E todas as coisas graves, grandes, taciturnas
A ti são semelhantes.

Sophia de Mello [Dia do Mar]




sábado, 15 de agosto de 2009

Apenas versos



Apenas versos

Lindos, tão lindos os versos que tefiz
Mesmo quando espelham pretensa indiferença
No ignorar os dias e escutar o pensamento
No correr contra o tempo e contra o vento
E expulsar maldades que não quiz
Inverdadades que contemplo
Ao esbater-se no horizonte o canto
Sereia eterna do vasto desencanto
De saudades vãs...
Secou-se tudo em mim
Nesse desespero inerme e rouco
Preso, fundo, bem fundo,
Solitário e louco
Tecido na suave claridade das manhãs.

[16/04/2009)


segunda-feira, 27 de julho de 2009

Viscosidade


Demissão

Se eu pudesse escreveria um poema sem palavras.
As palavras não existem. Já nada dizem
Do que antes era. Antes
Quando o medo era sombra inexistente
E era possível aos homens falar de amor.
Agora há só o espantalho do medo,
As bocas negras, a fome negra,
E o uivo dos cães mudos nas noites desertas e distantes.
Antes havia feras e cristãos para as feras.
Agora, ou porque tudo são feras,
Ou porque já não há cristãos
(E há só o medo, o pavor, a fome,
As cumplicidades carnais ao topo dos ventos,
E o ridículo de se ter medo: o pasto das trevas)
A semente de Deus anda à deriva sem leira onde se acoite...
- Espuma, sonho, aurora, canto? - palavras ausentes.
No galeão da vida, haverá de novo bodas de sangue
Para que do Mar volte para a Terra
O viço e a alegria das novas sementes.

Vasco Miranda , A Vida Suspensa

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Os grilos



Os grilos



Os grilos não se ouvem de dia, no verão, senão com muito calor. Escondidos na sombra, deleitam-se com a frescura que emana das raízes das plantas nos campos de macela, ervas, searas a perder de vista. O seu canto confunde-se com o grito contínuo das cigarras. Mas é à noite que orquestram o seu incessante grilado, vestidos de cerimónia, com longas casacas de abas, numa dança de sons a que a escuridão calma dá eco. Não admira: estão apaixonados e fazem o seu concerto sinfónico em honra da vida que, breve, passa.

Quem os ouvir, os grilos
que trilam trilam na escuridão,
há-de julgar que os grilos
têm razão.

Enchem a Noite de trilos.
Nem sei que absurda causa os leva
a serem mais presentes e reais
do que o perfume da esteva.

Cantam. De quanto é bom me alheiam.
Não há Estrelas, nem rouxinóis, nem nada:
há eles só, riscando a Noite
com sua voz encarnada.

Que é das Fadas que vêm com a Noite?
Que é dos sonhos que a gente
sonha, mesmo acordados,
só porque a Noite nos pressente?

Que é dos versos nascidos
quando as brisas da Noite nos embalam?

(Zanga-se o Poeta, à noite, com os grilos...

Mas eles não se ralam.)

Sebastião da Gama, Cabo da Boa Esperança