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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Palavras e silêncio...


O silêncio é a minha maior tentação.

(...)
 As palavras, esse vício ocidental, 
estão gastas. envelhecidas, envilecidas.
 Fatigam, exasperam.
E mentem, separam,  ferem.  


 Também apaziguam, é certo, mas é tão raro! 


 Por cada palavra que chega até nós,
 ainda quente das entranhas do ser, 
quanta baba nos escorre em cima
 a fingir de música suprema!





 A plenitude do silêncio
 só os orientais a conhecem!
 Lao Tsé ensinou
 que quem sabe não fala
 e quem fala não sabe.(...)

Eugénio de Andrade, in Poesia e Prosa: Rosto Precário

*** Formatação da responsabilidade de Msilva.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Mentira...





Mentira passada
foi enredo?
Ou medo?
Não foi nada. 
Agora, tem afluências
e confluências.
Carta hidrográfica incoerente
e sem fim.
Do rio-mentira com sua nascente,
do rio-ameaça
que se abraça
em mim.

Fernanda Botelho, As Coordenadas Líricas

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Fugas e evasões...

Malhoa, Os bêbedos

- Que fazes aí? - perguntou ao bêbado,
silenciosamente instalado diante de uma colecção
de garrafas vazias e uma colecção de garrafas cheias.
- Eu bebo - respondeu o bêbado, com ar lúgubre.
-Porque bebes? - perguntou o Principezinho.
- Para esquecer... esquecer que tenho
 vergonha - confessou o bêbado,
 baixando a cabeça...
 Saint.Exupéry
Em busca de outros «asteróides», evadiu-se o Principezinho, levado certamente por «um bando de pássaros selvagens que emigravam».
Às vezes fico a pensar que há um Principezinho dentro de mim... Também eu não gosto da constância.

Procuro evadir-me tantas vezes...
Evadir-me de mim mesmo, abandonando os compromissos assumidos, em busca de «outros asteróides», pois
o meu planeta familiar
o meu planeta escolar
o meu planeta de homem público
o meu planeta de pai de família
o meu planeta de mãe de família
está a tornar-se monótono e sem colorido.
E então a sociedade acena-me com os seus chamarizes luminosos e sedutores.

- Entra num bar e bebe!
Bebe para esquecer! 
Esquecer que ainda tens vergonha.
Que és honrado.
Que tens família...

- Estás cansado da vida.
Entra no embalo quente da música.
Vamos gozar!
Deixa de parte a tua vida séria!
Afinal, o que que os outros têm a ver com os teus compromissos?...

- Está-se mesmo a ver amigo!
Uma «puxada» facilita um pouco as coisas. E as tristezas da vida «evaporam-se»...
E o rapaz convence a rapariga de que «afinal, a gente precisa de ser livre e deixar de ser bitolado. A gente só faz amor para ver se existe adaptação sexual. De contrário, porquê casar?»...
E o empresário sai com a secretária para um programa no motel mais próximo.
E a esposa, cansada de tantas mentiras e esperas, procura também as compensações que as novelas fartamente lhe sugerem. Há muita facilidade nesse campo: as «filiais» e os «gaviões» não faltam...
E o mundo está cada vez mais doente.
Mais triste.
Mais vazio.

São fugas e evasões que não conduzem a nada, a não ser a uma profunda prostração.
Frustrações que muitas vezes levam a uma sempre mais ampla permissividade, gerando o círculo vicioso do esvaziamento dos que buscam
amor onde não existe amor,
felicidade onde existe alienação,
paz, onde apenas existe vazio.
E o essencial, o mais importante, o Único necessário,o indispensável para a realização humana,
quando e onde no-lo apontam
os meios de comunicação?
C. A. Schmitt 


domingo, 11 de julho de 2010

Não sei porquê...




Não sei porquê... ausente

e nunca sei porquê...
talvez em fuga

deixando na paisagem
uma réstea de imagem
e o som cruel magoado
tudo menos banal
esse eco virtual
de viajante ansioso
mas cansado

Nunca sei porquê...
e talvez algo conheça
dessa loucura insone
de querer percorrer liberto
os caminhos da vida
desafiando limites
brandindo ideais
desacreditando de outrem
sonhando impossíveis
procurando sempre além do espaço
em regiões intemporais
encontrar mais vida
beleza e movimento

E nesse vai-vém sedento
de magia e mistério
lutando contra o vento
esquecer-se também de si
e dos demais...


Sophia Guiomar, Poemetos