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terça-feira, 28 de abril de 2020

...do desassossego...


 
 "Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa.  [...] - sim, mas as coisas pequenas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e as terei, pelo menos naquele preciso e exacto momento, doem-me metafisicamente. Abre-se-me um abismo na alma e um sopro frio da boca de Deus roça-me pela face lívida.
 O tempo! O passado! Aí algures, uma voz, um canto, um perfume ocasional levantou em minha alma o pano de boca das minhas recordações.... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância.
Quando os evoco, toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."

Fernando Pessoa, in «O livro do desassossego»

domingo, 24 de março de 2019

"Epígrafe"


A sala do castelo é deserta e espelhada. 

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?... 
Aqui tudo já foi... Em sombra estilizada, 
A cor morreu - e até o ar é uma ruína...
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina...
Um som opaco me dilui em Rei...

Mário de Sá -Carneiro, in Poesias

quinta-feira, 14 de março de 2019

"Vontade de dormir"...


Fios de oiro puxam por mim
A soerguer-me na poeira --
Cada um para o seu fim,
Cada um para o seu norte...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
-- Ai que saudades da morte...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Quero dormir... ancorar... 
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Arranquem-me esta grandeza! 
-- Para que me sonha a beleza, 
Se a não posso transmigrar?

in  Poesias de Mário de Sá- Carneiro


sábado, 2 de março de 2019

"Adágio"...


Coimbra, 21 de Fevereiro de 1983



Tão curta a vida e tão comprido o tempo!...
Feliz quem o não sente.
Quem respira tão fundo
O ar do mundo,
Que vive em cada instante eternamente.

Miguel Torga,  in Diário XIII

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Sugestão...

[Paris, Agosto de 1914]
As companheiras que não tive, 
Sinto-as chorar por mim, veladas, 
Ao pôr-do-Sol, pelos jardins...
Na sua mágoa azul revive 
A minha dor de mãos finadas 
Sobre cetins...

Mário de Sá-Carneiro, in  no lado esquerdo da alma

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Palavras e silêncio...


O silêncio é a minha maior tentação.

(...)
 As palavras, esse vício ocidental, 
estão gastas. envelhecidas, envilecidas.
 Fatigam, exasperam.
E mentem, separam,  ferem.  


 Também apaziguam, é certo, mas é tão raro! 


 Por cada palavra que chega até nós,
 ainda quente das entranhas do ser, 
quanta baba nos escorre em cima
 a fingir de música suprema!





 A plenitude do silêncio
 só os orientais a conhecem!
 Lao Tsé ensinou
 que quem sabe não fala
 e quem fala não sabe.(...)

Eugénio de Andrade, in Poesia e Prosa: Rosto Precário

*** Formatação da responsabilidade de Msilva.

sábado, 12 de janeiro de 2019

"Se alguém mentiu..."


Se alguém mentiu, não fui eu.
 - Eu vinha alegre e cantava.
Se alguém mentiu foi o Sol,
se alguém mentiu foi o Mar,
que ficavam tristes, tristes,
à medida que eu cantava.

Se alguém mentiu não fui eu.
 - Se alguém mentiu, foi o Céu:
era azul e fez-se pardo,
como se fosse da Morte
que a minha boca falava.

Eu vinha alegre e cantava.
Tudo, à volta, escurecera. 
Se havia naquele dia
qualquer palavra sincera,
da minha boca saía.

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança

terça-feira, 3 de abril de 2018

João Villaret - O Mostrengo de Fernando Pessoa



Quantos mostrengos nos rodeiam cada dia!...
Há que saber conseguir a coragem de enfrentá-los até ao último dia em que já nem nos interesse combatê-los!...

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Ao cair da tarde...


Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto
A sombra já evitava as moitas. A humidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia de fazer chorar, nesse sol~posto.


A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto...


Ao fundo, o mar batia a crista dos escolhos
Depois o céu... e mar e céus azuis, dir-se-ia
Prolongarem a cor ingénua de teus olhos...

A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada...


Manuel Bandeira

domingo, 17 de dezembro de 2017

Noite em melodia...


Noite perdida,
não te lamento:
embarco a vida

no pensamento,
busco a alvorada
do sonho isento,

puro e sem nada,
- rosa encarnada,
intacta, ao vento.




Noite perdida,
noite encontrada,
morta, vivida,

e ressuscitada...
Asa da lua
quase parada,

mostra-me a sua
sombra escondida, 
que continua

a minha vida
num chão profundo!
- raiz prendida

a um outro mundo.
Rosa encarnada
do sonho isento,


muda alvorada
que o pensamento
deixa confiada

ao tempo lento...
Minha partida,
minha chegada,

é tudo vento...


Ai da alvorada!
Noite perdida,
noite  encontrada...

Cecília Meireles - "Música"...

domingo, 13 de agosto de 2017

Saudade... em Ricardo reis

 SAUDOSO já deste verão que vejo,
Lágrimas para as flores dele emprego
Na lembrança invertida 
De quando hei-de perdê-las.


Transpostos os portais irreparáveis
De cada ano, me antecipo a sombra
Em que hei-de errar, sem flores,
No abismo rumoroso.


E colho a rosa porque a sorte manda.


Marcenda, guardo-a; murche-se comigo
Antes que com a curva 
Diurna da ampla terra.

in "Ficções do Interlúdio", de Ricardo Reis[heterónimo de F. Pessoa]

sexta-feira, 11 de abril de 2014

ODE...


Nuvens tocadas pelos ventos, ide!
Lá para além de vós, o céu não passa.
Contra as rochas erguidas e paradas,
Desfazei-vos na vossa eterna lide,
Ondas!, flocos de espumas encrespadas...

Que a praia, não há onda que a desfaça.

Desfolhai-vos nas ondas do tufão,
Rosas inda em botão esta manhã,
Folhas aos velhos troncos arrancadas!
Cinzas levais, só cinza!, em vossa mão,
Tempestades futuras e passadas!

Sobre a semente a vossa fúria é vã.

Decorrei, dias meus já sem sentido
Senão o de ficar, que não é vosso.
Dissolveis-vos no ar, mãos revoltadas!
Gestos, formas, visões, sons, pó erguido,
Voltai ao pó das tumbas ignoradas!...

Que não se apaga a luz de além do poço.

Sou, como as nuvens que nada são,
E as ondas frágeis como vãs quimeras,
E as pétalas e as folhas desfolhadas,
E as formas fogos-fátuos da ilusão...
Correi, lágrimas fúteis enganadas!

Mas tu canta, minh' alma!, enquanto esperas.

José Régio, [1901-1969]

domingo, 9 de março de 2014

Nocturnos...I


Há um inverno cansado nas copas extáticas
e as estrelas acendem-se de um vento alto
que azula o céu
de um azul que a noite vai roendo consigo.


As grades, ao prolongarem-se por aí fora,
trazem-me um sinal contínuo de muro falso
e enferrujado.

~~

As grades não apontariam nada,
se cada uma delas se prolongasse também
no voo completo de ambas as curvas da seta.

Jorge de Sena in Perseguição (1942)

sexta-feira, 7 de março de 2014

O último adeus de um combatente


Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.

Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que eu parti e tu ficaste!

Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.

Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!

Vasco Cabral
Guiné- Bissau 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Sítio...


Sobre el monte pelado
un calvario.
Agua clara
y olivos centenarios.
Por las callejas
hombres embozados,
y en las torres
veletas girando.
Eternamente
girando.
! Oh pueblo perdido
en la Andalluía del llanto!

F. García Lorca

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Viúvas na praia...


Neste mesmo local, 
de olhos postos no mar,
 - quantas mulheres de Portugal
se vieram sentar? 

Quantas e quantas gerações aqui vieram
até à presente geração, 
que lutaram, pescaram e comeram
sardinha com pão.

Neste mesmo local,
de olhos cansados pousados no mar,
ai quantas, quantas mulheres do litoral
se vieram sentar...

Manhãs de tempestades despertaram,
homens e homens partiram, 
mulheres enviuvaram
e de negro se vestiram.

E como prémio tiveram, 
tiveram como pensão, 
algumas frases piedosas que lhes deram
e nem sardinha com pão, nem sardinha com pão.

Sidónio Muralha - Companheira dos Homens (1950)
in Poemas (1971)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Adeus...


Adeus! Adeus! Partir... eis o destino!
Para dizer adeus ao mundo vim.
Um adeus me persegue de menino;
Anda na minha sombra, vive em mim.

Sou sempiterno adeus! Vou-me encarnando
Nas formas do meu próprio padecer...
Desgrenhadas figuras soluçando,
Dizem-me adeus nos longes do meu ser.

Adeus! O carro foge. O sol desmaia...
Um gesto, um lenço tremulando ao vento...
Depois, a rósea tarde que se espraia,
Numa onda de negro sentimento.

E vejo confundir-se a minha aldeia
Com as nuvens além dos horizontes...
Dela me fala a triste lua cheia,
Que em seu alvor negrejam ermos montes.

{...]

Eu vejo-te, sofrendo...  A minha dor
Lembra a imagem vivente do teu rosto.
Sofrendo é ser contigo, eterna Flor,
Que deste vida eterna ao meu desgosto.

E agora viverei de tudo quanto
É mais  que tua angélica presença;
Isso que no teu ser é já meu canto
E em lágrima divina se condensa.

Por aqui, meu Amor, irei vivendo
Da sombra que teu vulto, em mim, deixou.
Quando te disse adeus e o sol, morrendo
Nos teus olhos - tão negros! - se ficou...

Viverei duma eterna despedida,
Por esse mundo, ao deus-dará da sorte;
Longe de ti, que  és a minha vida,
Perto de mim, que sou a minha morte!

Teixeira de Pascoais, Terra Proibida

sábado, 3 de agosto de 2013

Harmonia da tarde


Voici venir les temps où vibrant sur sa tige
Chaque fleur s' é vapore ainsi qu' un encensoir;
Les sons et les parfums tournent dans l' air du soir,
Valse mélancolique et langoureux vertige!

Chaque fleur s´é vapore ainsi qu' un encensoir;
Le violon frémit comme un coeur qu' on afflige;
Valse mélancolique et langoureux vertige!
Le ciel est triste et beau comme un grand reposoir.

Le violon frémit comme un coeur qu' on afflige,
Un coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir!
Le ciel est triste et beau comme un grand reposoir;
Le soleil s' est noyé dans son sang qui se fige.

Un coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir,
Du passé lumineux recueille tout vestige!
Le soleil s' est noyé dans son sang qui se fige;
Ton souvenir en moi luit comme un ostensoir!


Baudelaire (1821-1867), Les Fleurs du Mal







quarta-feira, 31 de julho de 2013

Mater Dolorosa


Quando se fez ao largo a nave escura
Na praia essa mulher ficou chorando,
No doloroso aspecto figurando
A lacrimosa estátua da amargura.

Dos céus a curva era tranquila e pura:
Das gementes alcíones o bando
Via-se ao longe, em círculos, voando
Dos mares sobre a cérula planura.

Nas ondas se atufara o Sol radioso,
E a Lua sucedera, astro mavioso,
De alvor banhando os alcantis das fragas...

E aquela pobre mãe, não dando conta
Que o Sol morrera, e que o luar desponta,
A vista embebe na amplidão das vagas...

Gonçalves Crespo (1846-1883) , Nocturnos

sábado, 13 de julho de 2013

Poema do silêncio


Sim. foi por mim que gritei,
Declamei.
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi-tragi-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais, ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

                                                       [...]

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do  que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á.
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.

José Régio, As encruzilhadas de Deus