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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

"Leio num asno..."


Leio num asno: este pintor possui
a convicção profunda de que a natureza 
comunga na dor humana. Não sei
o que Girard David pensava: 
apenas sei o que ele pintou. Se o quadro 

Girard David ( c. 1460-1523) 

retrata a natureza como um sentimento
ou usa a natureza como um doce véu 
atento ao que se passa no proscénio dela, 
não sei se isso é profundo ou convicção, 
se é do pintor, do tema, ou sucedeu 
porque as formas doloridas governaram
o quadro inteiro. Tudo o mais é prosa e má
sobre pinturas belas. Um verniz 
Santo António de Pádua- Girard David (c. 1460.1523)

daquela estupidez que vulgariza as coisas
que os homens fizeram para serem menos
 - as coisas - que a vaidade humana de 
elas e eles significarem.   
[Paris, 28/01/1973]
Jorge de Sena, in 40 anos de servidão

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Considerandos...


A pintura e a poesia se assemelham:
em ambas gostarás mais de umas cousas
se estiveres de perto; outras de longe.
Esta quer pouca luz, aquela, às claras,
apetece ser vista, não receando
a perspicácia de olhos julgadores.
Uma - causa deleite uma vez vista;
outra - vista dez vezes sempre agrada.

Quinto Horácio Flaco, Arte Poética (tradução de Cândido Lusitano)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Regra pictórica...




«[...] Sentei-me em frente do cavalete vazio, a ler. De propósito procurara os escritos de Leonardo da Vinci. E, de regra em regra, vim a ler o que já tantas vezes notara:  «Vê bem, pintor, qual é a parte mais feia do teu corpo e concentra nela os teus estudos para te corrigires. Porque, se és brutal, as tuas figuras parecê-lo-ão igualmente e não terão espírito; e,desta maneira, tudo quanto tens em ti de bom ou de mau transparecerá de alguma maneira nas tuas figuras.» Eram, entretanto, horas de jantar. Pousei o livro na mão espalmada de um Santo António que perdeu o Menino Jesus e saí. Cultivo a firme convicção de que este santo não perde a ocasião, que assim lhe dou, de melhorar os seus conhecimentos com as leituras do seu depois: descobri-o quando me pareceu vê-lo corado  e comprometido num dia em que o presenteara com um livro ousado de mais para a sua pureza. Melhor leitura lhe ficava hoje. Morto, segundo a história diz, em 1231, não imaginaria talvez Santo António ques e pudesse ser tão pecador como viria a ser Leonardo. nem tão absurdamente humano.»

                                                               José Saramago. in Manual de Pintura e Caligrafia

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

CORPO


As tuas mãos são ânforas vazias
que o mistério da noite não conteve.
São búzios...No seu murmúrio breve
perpassa a sombra que nos une aos dias.

Nós escutamos...Então quase sem seres
tu nos abrigas como um longo manto
que, levemente, cai em nós enquanto
te recordamos sem nos pertenceres.

E como a esperança que nos envolvera
assim ficaste, vaga, pelas claras
manhãs de sonho que te fez ausente.

Ali tu foste a paz que em nós descera,
e, depois, partes tão serenamente
como o silêncio pousa nas searas...

Fernando Guimarães, A Face Junto ao Vento

terça-feira, 5 de julho de 2011

Jacques Prévert


Para fazer o retrato de um pássaro...

Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro
agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta
esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres...
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho com o pincel
depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar alguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
a poeira do sol
e o ruído dos bichos entre as ervas no calor do verão
e agora espera que o pássaro se decida a cantar
se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar
então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.

Eugénio de Andrade, Trocar de Rosa


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A Borboleta



Chorava quando uma borboleta da noite queimava as asas na chaminé do candeeiro ou se esborrachava contra as lâmpadas quentes e transparentes que iluminavam as sombras da sala nas noites cálidas do verão.
E nunca apreciei o desporto de correr atrás das borboletas diurnas com uma rede, apanhá-las meio entontecidas e espetar-lhes o alfinete para as deixar secar lentamente só para mostrar uma bela colecção! Não sei porquê, mas soava-me a cobardia e crueldade e as pobrezinhas não mereciam isso. Uma borboleta é linda enquanto tem a liberdade de voar, de pousar sobre a flor, de ensaiar danças com outras companheiras no espaço que o Sol ilumina. Sem Sol não há borboletas. Só há mariposas. Estas perdem em cor e ganham em mistério...
Quando menina, cantava um pequeno poema que duas ou três décadas depois vim a descobrir pertencer a Fernando Pessoa. Era linda a melodia - de Lopes Graça, parece - e o termo mariposa soava como algo de misterioso e terno aos meus ouvidos que se deliciavam com ele e nem perguntaram na época o que objectivamente significava. As borboletas da noite, na casa da família, eram então, e apenas, borboletas da noite. E foi também por acaso, e maravilhada, que, num dia também longínquo, descobri ao que se referia. E se não perdeu em poesia, ganhou em conhecimento de mistura com uma espécie de êxtase próprio do mistério da noite.

Louca mariposa
Bate na vidraça...
Vem da noite enorme...
Vem da noite enorme
Cheia de perfume...
Fora tudo dorme...
Que silêncio enorme!

Estou a citar de memória. Ainda guardo aquela melodia lenta, quase ciciada, bem dentro de mim. Mariposa era nessa época o conjunto dos eflúvios da noite prenhe de cheiros intensos, de silêncios consentidos, do céu escuro e estrelado, com ou sem a diafaneidade do luar.
Ao varrer as varandas, de manhã, encontrava pelo chão os cadáveres macios e acinzentados, ou em tonalidades de castanho, de patinhas escuras e hirtas e uns enormes olhos salientes...
Tinha uma amiga que sentia medo delas, um terror quase repulsivo. Eu não entendia... Ria-me com os seus gritinhos histéricos e os trejeitos cheio de confusão, mas sentia vontade de lhes preparar um lindo funeral com muitas e mimosas flores. Até na morte eram lindas, macias, quase penugentas, seres a quem os olhos tinham condenado a morrer mais jovens, decerto, por pura inexperiência.
Eram o símbolo do mistério da noite perfumada, da morte não anunciada, tal como uma parte de mim que não gostava do Sol porque a Lua também era linda, não crestava a pele e o luar olhava-se de frente. Podia tornar triste um coração dorido, mas a lua não obrigava a chorar.
As borboletas são deveras lindas: alegres, ondeantes, adoráveis. Gosto de vê-las libando o néctar das flores, ainda que saiba que vão bichar a fruta e as larvas me comerão todas as folhas das roseiras enquanto se prepararem para formar casulo e dar vida a outras borboletas... São elegantes, extravagantes, muito tontas, muito coloridas, extremamente belas!
... Mas continuo a sentir muito carinho, muito encantamento, muito respeito até... pelas mariposas.




domingo, 25 de outubro de 2009

Tristeza


Toda a tristeza tem razão de ser.
Em cada vida há sempre uma desgraça.
...sina terrível que o Destino traça
e que cada um de nós tem de sofrer.

Domina, tem a força de um dever.
Sufoca-nos a voz - cruel mordaça!
Não se pode afastar, só embaraça,
não nos deixa gritar, cantar, viver!

Remédio para a dor, quem o terá?
A causa da desgraça aonde está?
Quero gritar, não sei da minha voz!

E entretanto...é tão fácil triunfar!
O remédio consiste em se encontrar
alguém mais desgraçado do que nós.

Virgínia Vitorino, Namorados




sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Renoir - As meninas: "Rosa e Azul"

O quadro acima - "As meninas Cahen d'Anvers", conhecido como rosa e azul, foi pintado por Auguste Renoir em 1881. Encomendado pelo banqueiro Louis Raphael Cahen d'Anvers, pai das meninas retratadas, de nome Alice e Elizabeth, permaneceu esquecido longo tempo por não ter ficado satisfeito com o resultado, num qualquer obscuro local da casa e só muitos anos depois descoberto.
Rosa e Azul foram tons preferidos por Renoir na sua obra pictórica.. E a expressão destas duas crianças com os seus vestidos brancos com faixas largas, uma em rosa, outra em azul, são de uma delicadeza requintada, decerto interpretada pelo pintor a partir dos originais.