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sábado, 24 de maio de 2014

Estrela da Manhã


Numa qualquer manhã, um qualquer ser,
vindo de qualquer pai,
acorda e vai.
Vai.

Como se cumprisse um dever.

Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;
nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.
E em seu impessoal desejo latejam todos os restos
de quantos desejos ficaram antes por desejar.

Abre os olhos e vai.


Vai descobrir as velas dos moinhos
e as rodas que os eixos movem,
o tear que tece os linhos,
a espuma roxa dos vinhos,
incêndio na face jovem.

Cego, vê, de olhos abertos.
Sozinho, a multidão vai com ele.
Bagas de instintos despertos
ressumam-lhe à flor da pele.

[...]

Vai.

Lábios húmidos do amor da manhã,
polpas de cereja.
desdobra-te e beija 
em ti mesmo a carne sã.

Vai.

À tua cega passagem
a convulsão da folhagem
diz aos ecos
«tem que ser»;
o mar que rola  e se agita,
toda a música infinita,
tudo grita
«tem que ser».

Cerra os dentes, alma aflita.
Tudo grita
«tem que ser».

António Gedeão, Poesias Completas




terça-feira, 23 de agosto de 2011

"Europa a Ferros"



Sol, pássaros voando, seara madura...
Este, o poema interrompido.

Só os dias a fio que o não são:
Tempo retido
Como água podre no charco;
Gritos e sangue escorrendo
Como linha de formigueiro
No chão encardido,
Amassando
Pontas de cigarro, vómitos, dentes partidos.

Nem dia nem noite:
Apenas a janela entaipada
( Lá fora a promessa das quatro estações),
E a porta que de súbito se abre,
Guinchando como pássaro agoirento.

O resto, como ressaca distante ou búzio,
São as pancadas surdas, sábias, sádicas,
Como passos de patrulha a horas mortas,
Como tiquetaque de relógio
Marcando não sei que hora...

Ou se a hora!

Tomaz Kim, Flora & Fauna

terça-feira, 3 de maio de 2011

Ardendo...




Hoje acordei a desejar-te
Intensamente...
Nem sei porquê
Nem sei que me deu.
Apeteceu-me ligar-te
E não o fiz.

Porque não quis?...
Vencer o enleio
Quebrar o silêncio
Exige força
E não sentir receio...

Palpitante, anelante,
Assim me senti
Naquela hora...
Lamentando embora
Não estar perto de ti...

Entanto sei
Que não me queres
Como te quero...

A vida corre...
Eu amo e espero.

*07.03.010*

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Melodia vaga - o ocaso


Ontem, um amigo enviou-me algo de extraordinário: a preensão videográfica de momentos maravilhosos do ocaso do Sol no horizonte esbraseado, no mar, no pinhal, na montanha. E sentia--se, com a belíssima música de fundo, como pode ser algo de tão sereno belamente esculpido nas formas da natureza, ou por elas, coado pelas nuvens esparsas pelo céu, deixando laivos sanguinolentos ou róseos nas águas paradas que os espelham. Só uma natureza requintada de poeta pode compreender a grandeza de certos momentos e reinterpretá-los. No fim, como remate, um belíssimo poema que falava... sei já lá eu bem de quê?... da vida, do sentir, do amor, da dor, de tudo que é nada perante o mistério do existir.
Sem querer, hoje os olhos da alma cairam-me num poema de Sebastião da Gama sobre o mesmo tema. E aqui fica a sensibilidade deste poeta português a quem foi ceifada a vida em plena juventude - tinha 28 anos - e anda tão esquecido nos livros dos nossos jovens e crianças por demasiado "démodé".


Melodia Vaga

Voz do Crepúsculo, suave,
de onde me chamas?

Bates-me à porta, levezinho...
( Feita de Cor que se enternece?
Feita de flébeis meigas brisas?)

Se desço as pálpebras, melhor
percebo o vago apelo teu
(...que vem da Terra?
...que vem do Céu?)
Oiço que chamas, fecho os olhos.
Chamas e como que me sinto
em brandas sedas embalado.
Não sei p'ra onde vou levado
nem de onde chamas...
Será a Morte?

Se fosse a Morte,
que linda morte ela me dava!...
Baixava as pálpebras, sorria...
Deixava as sedas afagarem
meu corpo jovem...
E assim, sem lágrimas, sem velas,
e sem caixão, sem flores, sem cruz,
só eu sabia que morria,
mas vagamente, meigamente,
qual uma seda a destingir-se
ou uma síncope da Luz...

Sebastião da Gama, Cabo da Boa Esperança

Não seria este o poema que seria entendido sem ajuda na sua interpretação. Mas como
ajudaria um jovem a entender a morte como um todo de que precisamente
ele também faz parte.