Powered By Blogger

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta Sol poente. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sol poente. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 6 de março de 2019

"Vento no rosto"





À hora em que as tardes descem,
noite aspergindo nos ares,
as coisas familiares
noutras formas acontecem.

As arestas emudecem.
Abrem-se flores nos olhares.
Em perspectivas lunares
lixo e pedras resplandecem.

Silêncios, perfis de lagos,
escorrem cortinas de afagos,
malhas tecidas de engodos.

Apetece acreditar,
ter esperanças, confiar,
amar a tudo e a todos.

António Gedeão, in Poesias Completas

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Céu do poente


Há uma profusão furiosa de final.
Para morrer em triunfo a multidão é apta.
Irrompe entre carmins um ímpeto animal.
A maravilha invade e violenta nos rapta.

Jorge Guillén, tradução de Eugénio de Andrade

sábado, 10 de março de 2012

Nenhum sopro de ausência...


Nenhum sopro de ausência.
Só a paixão
Suave de um sol íntimo
No seu ninho verde e alaranjado.
Simplicidade da substância volátil,
Desejo no seu silêncio,
Luxo indolente, frescura de vértebras solares.
Intimidade perfeita
E que demora numa cândida estância.
Tudo se tornou interno neste espaço interior,
Na delícia externa de um sossego de folhas.
O que era fugaz converteu-se em tempo enamorado
E em tranquila doçura de hábitos.

António Ramos Rosa

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Céu do poente


Céu do poente

Há uma profusão furiosa de final.
Para morrer em triunfo a multidão é apta.
Irrompe entre carmins um ímpeto animal.
A maravilha invade e violenta nos rapta.

Eugénio de Andrade, Trocar de Rosa

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Dança das palavras


Rasgaram-mo...
Fulgor que me guiou,
Apagaram-mo...
As taças coruscantes de vanádio,
Onde bebi a Crápula e a Loucura?...
Tardes macias de Amor...
Oiro que em mim reflectia...
Tudo lambeu o gládio
Do Anjo que me acordava
E me falava
Na noite escura...
Tardes macias de Amor...
Oiro que em mim reflectia...
::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
Há um peregrino que me bate à porta
E vem passar comigo as noites, em sono insano...
Esse peregrino... é o Desespero Humano!
::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
Como eu queria que florisse a minha Alma morta!
- Porquê? O oiro já passou...
- Porquê? - O laivar negro já foi luar,
E desse lume nada em mim ficou
A brilhar...

Vítor A.e Silva - 1956-01-30



segunda-feira, 29 de junho de 2009

Melodia vaga - o ocaso


Ontem, um amigo enviou-me algo de extraordinário: a preensão videográfica de momentos maravilhosos do ocaso do Sol no horizonte esbraseado, no mar, no pinhal, na montanha. E sentia--se, com a belíssima música de fundo, como pode ser algo de tão sereno belamente esculpido nas formas da natureza, ou por elas, coado pelas nuvens esparsas pelo céu, deixando laivos sanguinolentos ou róseos nas águas paradas que os espelham. Só uma natureza requintada de poeta pode compreender a grandeza de certos momentos e reinterpretá-los. No fim, como remate, um belíssimo poema que falava... sei já lá eu bem de quê?... da vida, do sentir, do amor, da dor, de tudo que é nada perante o mistério do existir.
Sem querer, hoje os olhos da alma cairam-me num poema de Sebastião da Gama sobre o mesmo tema. E aqui fica a sensibilidade deste poeta português a quem foi ceifada a vida em plena juventude - tinha 28 anos - e anda tão esquecido nos livros dos nossos jovens e crianças por demasiado "démodé".


Melodia Vaga

Voz do Crepúsculo, suave,
de onde me chamas?

Bates-me à porta, levezinho...
( Feita de Cor que se enternece?
Feita de flébeis meigas brisas?)

Se desço as pálpebras, melhor
percebo o vago apelo teu
(...que vem da Terra?
...que vem do Céu?)
Oiço que chamas, fecho os olhos.
Chamas e como que me sinto
em brandas sedas embalado.
Não sei p'ra onde vou levado
nem de onde chamas...
Será a Morte?

Se fosse a Morte,
que linda morte ela me dava!...
Baixava as pálpebras, sorria...
Deixava as sedas afagarem
meu corpo jovem...
E assim, sem lágrimas, sem velas,
e sem caixão, sem flores, sem cruz,
só eu sabia que morria,
mas vagamente, meigamente,
qual uma seda a destingir-se
ou uma síncope da Luz...

Sebastião da Gama, Cabo da Boa Esperança

Não seria este o poema que seria entendido sem ajuda na sua interpretação. Mas como
ajudaria um jovem a entender a morte como um todo de que precisamente
ele também faz parte.