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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Caminho - I

Tenho sonhos cruéis, n' alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na areia do futuro,
Embebido em saudades do presente...

[Imagem colhida na net]

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente.
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta de harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d' agora,

Sem ela o coração é quase nada: 
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

Camilo Pessanha, in Clepsidra




quarta-feira, 10 de julho de 2019

Valsa das rosas - Russian State Symphonic Orchestra














 Rosas...flores de verão,
 ébrias de calor,
 fragilizadas sob o sol abrasador
 que lhes cresta as pétalas
 ao beijá-las 
com devoção e fervor...
...fremente de emoção,
num murmuro labor,
sussurro baixo, de mansinho:
...são para ti, meu senhor...



domingo, 10 de dezembro de 2017

Chuva de outono...



Tristeza não se canta - 
- chora-se
que tristeza nasceu p'ra se chorar...



Chamou por ti na madrugada 
e não vieste

uma maçã roxa e perfumada 
feneceu na árvore

Aguarela de Filipa Antunes

na cela húmida de orvalho
como condenada
ela te esperava
e tu não estavas

e para sempre se quedou calada 
a madrugada. 


sábado, 24 de maio de 2014

Estrela da Manhã


Numa qualquer manhã, um qualquer ser,
vindo de qualquer pai,
acorda e vai.
Vai.

Como se cumprisse um dever.

Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;
nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.
E em seu impessoal desejo latejam todos os restos
de quantos desejos ficaram antes por desejar.

Abre os olhos e vai.


Vai descobrir as velas dos moinhos
e as rodas que os eixos movem,
o tear que tece os linhos,
a espuma roxa dos vinhos,
incêndio na face jovem.

Cego, vê, de olhos abertos.
Sozinho, a multidão vai com ele.
Bagas de instintos despertos
ressumam-lhe à flor da pele.

[...]

Vai.

Lábios húmidos do amor da manhã,
polpas de cereja.
desdobra-te e beija 
em ti mesmo a carne sã.

Vai.

À tua cega passagem
a convulsão da folhagem
diz aos ecos
«tem que ser»;
o mar que rola  e se agita,
toda a música infinita,
tudo grita
«tem que ser».

Cerra os dentes, alma aflita.
Tudo grita
«tem que ser».

António Gedeão, Poesias Completas




sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Identidade...


[05:35 - 01.01.2014]   


Deitou-se com a primeira madrugada 
Desse ano menino
Que não saudou
Nem desejou

A madrugada fria não a agasalhou
Nem confortou

E também não chorou

Em silêncios harmónicos
De alvores febris
Sentiu sombras de ausência 
Vacilando num torpor de brumas

No inverno imperante de surdos rugidos
Havia finitos vazios de ânsia sofrida
Que chegavam devagarinho para não assustar
A gadanha inclemente e fria...

Prometera-se evitar chorar
Cansada de viver a eterna ausência


E afinal  deu-se conta
De haver humidade nos olhos
E dor no coração.

Anaïs


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Amanhecendo...


Dia

Amanhece.
O poeta de penas já cantou.
Já nos seus altos versos adormece
O fantasma da noite que passou.

Como um halo de sonho acontecido,
A luz das coisas vai nascendo em nós;
Desenha-se na sombra o pressentido
E a vida já tem gestos e tem voz.

Já novamente o sol doira a frescura
Da relva verde e do lençol de linho.
Outra vez há ternura
De gente a ver-se e de se ver caminho.

Miguel Torga,  Diário II - 1943