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sábado, 1 de dezembro de 2018

Antevendo uma morte anunciada...


[19-11-1935] 

Há doenças piores do que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhada mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

N.B: Talvez um dos últimos poemas datados de Pessoa ortónimo. Daí a poucos dias - 30 de Novembro - veio a falecer, queixando-se à irmã que não via  e pedindo os óculos.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Um engenheiro destroçado ...



Conclusão a sucata!...Fiz o cálculo, 
Saiu-me certo, fui elogiado...
Meu coração é um enorme estrado
Onde se expõe um pequeno animálculo...
Artesanato feito com sucata
A microscópio de desilusões
Findei, prolixo nas minúcias fúteis...
Minhas conclusões práticas, inúteis...
Minhas conclusões teóricas, confusões...

Que teorias há para quem sente
O  cérebro quebrar-se, como um dente 
Dum pente de mendigo que emigrou?


Fecho o caderno dos apontamentos
E faço riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou...

     
Soneto IV de  Barrow-on-Furness,
in "Ficções do Interlúdio", de Álvaro de Campos,
heterónimo de Fernando Pessoa

                                      
                                   







terça-feira, 10 de setembro de 2013

Três ou quatro sílabas...


Neste país
onde se morre de coração inacabado
deixarei apenas três ou quatro sílabas 
de cal viva junto à água

É só o que me resta
e o bosque inocente do teu peito
meu tresloucado e doce e frágil
pássaro das areias apagadas

Que estranho ofício o meu
procurar rente ao chão
uma folha entre a poeira e o sono
húmida ainda do primeiro sol

Eugénio de Andrade, Véspera da Água

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Doente...


Escrevo e choro, dói-me a alma; tenho febre; 
Não sei a quantos graus - calor insuportável;
 - Moderno Lábaro - oh que vida miserável
Eu vivo aqui, doente e só, no meu casebre.

Agora compreendo a dor de não ter lar
E a dor de viver só - desventura tamanha! 
É ser mais triste do que os cardos da montanha, 
As urzes do caminho e as noites sem luar...

José Duro, (1873-1899), exc. de Fel

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Romper-se...


«A renúncia é uma doença do desejo. Vem com a velhice quase sempre.»

Ant.Patrício, Words

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Louvar a vida...

Amar a vida no sofrimento não é fácil. Nunca é fácil.
Fácil é sorrir para ela quando há alegrias, saúde, prosperidade....Enfim, festa.
Aí,  não se pensa na doença, na tortura da incompreensão ou da inveja.
Mas a adversidade ronda e a revolta torna-se um caminho fácil também
Difícil será ser capaz de amar a vida no sofrimento... Mas pode ser um caminho de perfeição espiritual o tentar o esforço e superar a vontade de rendição ao desespero.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Horóscopo


Exilado, o sangue, ao sabor do pulso,
Alastra pelo ramal de veias e memória,
Em enxurrada de torpe noite infinda
De rezas, suadas e de cor, e medo.

E o medo.

Ossos, tendões e carne, sitiados pela treva,
Cedo se renderão, sem alarde, gastos.
Só o sangue, rubro, será fluxo e refluxo
Pra lá desta noite e dias e noite a virem.

Só, a dominar, o sangue, rubro, perene.

E o medo.

Tomaz Kim, Flora e Fauna