Powered By Blogger

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta auto-conhecimento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta auto-conhecimento. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Escrínio aberto...


… ao ver cair o cinzento da tarde 
cortadas as amarras para o mundo 
recolho as flores cinzentas 
 do anoitecer tardio e baço  
num murmúrio  
em que digo: não! 
recuso-me a entrar em outras vidas
mesmo se leitosas com laivos de  lua 
porque a mim  se agarram para sempre…

…quase terna , a hora de agasalhar o momento 
vê-me afundar na imagem do silêncio da tarde que chora
  e sussurra que sabe que deixei há muito de chorar…
e sabe porquê -  mas pouco importa 
por saber também que importou demais.

Narcisa de Belém



sábado, 2 de março de 2019

II - Tu não és...

Introdução:

Ler poetas, apreciar quadros ou outros aspectos de arte traz grandes surpresas ou belas experiências. 
A leitura de Bernardo Soares trouxe-me a compreensão da estranha vida do autor Pessoa, absolutamente invadida pela procura incessante do artista na busca da perfeição, e do escalpelo que utilizou em si-mesmo para compreender racionalmente emoções sentidas. 
A razão de me servir de alguns destes textos, foi tentativa de consciencializar outrem para a emoção por mim sentida ao descobri-los e descodificá-los, mas sem lhes apor filosofias complexas ou doutrinas linguísticas estranhas. 
Porque Pessoa só aparentemente é simples, mas também não é tão complicado quanto muitos o quiseram , ou querem, fazer parecer. 


[...]
« Lua de memórias perdidas sobre a negra paisagem, nítida de vazio[?], da minha imperfeição compreendendo-se. O meu ser sente-se vazante como se fosse um cinto teu que te sentisse. Debruço-me sobre o teu rosto branco nas águas nocturnas do meu desassossego, no meu saber que és lua no meu céu para que o causes, ou estranha lua submarina para que, não sei como, o finjas.
Quem pudesse criar o Novo Olhar com que te visse, os Novos Pensamentos e Sentimentos que houvessem de te poder pensar e sentir! 
Ao querer tocar no teu manto as minhas expressões cansam o esforço estendido dos gestos de suas mãos, e um cansaço rígido e doloroso gela-se nas minhas palavras. Por isso, curva um voo de ave que parece que se aproxima e nunca chega, em torno ao que eu quereria dizer de ti, mas a matéria das minhas frases não sabe imitar a substância ou do som dos teus passos, ou do rasto dos teus olhares, ou da cor triste e vazia da curva dos gestos que não fizeste nunca.»

*

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

[...]

Comentando:
Raramente há uma mulher real na obra de um artista, mas muitas, ou a sucessão de muitas, que se plasmam numa única quando a/as evoca. No caso de Pessoa, poeta lúcido e profundamente sensível, a mulher podia ser a prefiguração da beleza ...o que era tudo e era nada. Mas era sempre tudo no universo lírico do artista e nada como representação carnal, a não ser em traços eróticos, como surge em alguns dos seus sonetos.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

I - Tu não és...



[...]
Tu não és mulher.(...)É quando falo de ti que as palavras te chamam fêmea, e as expressões te contornam de mulher. Porque tenho de te falar com ternura e amoroso sonho, as palavras encontram voz para isso apenas em te tratar como feminina.
Mas tu, na tua vaga essência não és nada. não tens realidade, nem mesmo uma realidade / só / tua. Propriamente, não te vejo, nem mesmo te sinto.´És como que um sentimento que fosse o teu próprio objecto e pertencesse todo ao íntimo de si-próprio. És sempre a paisagem que eu estive quase para (poder) ver, perdido num eterno Agora para além da curva do caminho. O teu perfil é não seres nada, e o contorno do teu corpo irreal desata em pérolas separadas o colar da ideia de contorno. Já passaste, e já foste, e já te amei - o sentir-te presente é sentir isto.
Ocupas o intervalo dos meus pensamentos e os interstícios das minhas sensações. Por isso eu não te penso nem te sinto, mas os meus pensamentos são / opiais/ de te sentir, e os meus sentimentos góticos (?) de evocar-te.
[...]
Bernardo Soares( heter.  de F. Pessoa), in Livro do Desassossego

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Do escrúpulo...

[...]

O escrúpulo é a morte da acção. Pensar na sensibilidade alheia é estar certo de não agir. Não há acção, por pequena que seja - e quanto mais importante mais isso é certo - que não fira outra alma, que não magoe alguém, que não contenha elementos de que, se tivermos coração, nos não tenhamos de arrepender. Muitas vezes tenho pensado que a filosofia real do eremita estará antes no esquivar-se  a ser hostil, pelo simples facto de viver, do que em qualquer pensamento directamente relacionado com o isolar-se.
[...]
Fernando Pessoa, in Barão de Teive, A Educação do Estóico

domingo, 24 de fevereiro de 2019

O verdadeiro uso da razão




A dignidade da inteligência está em reconhecer, com desgosto próprio ou não que as leis naturais se não vergam aos nossos desejos, que o mundo existe independentemente da nossa vontade, que o sermos tristes nada prova sobre o estado moral dos astros, ou até do povo que passa pelas nossas janelas: nisto está o vero uso da razão e a dignidade racional da alma.

Fernando Pessoa [Barão de Teive]- in A Educação do Estóico


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Busca da verdade...


A montanha por achar
Há de ter, quando a encontrar,
Um templo aberto na pedra
Da encosta onde nada medra.

O santuário que tiver,
Quando o encontrar, há-de ser 
Na montanha procurada
E na gruta ali achada.

A verdade, se ela existe,
Ver-se-á que só consiste
Na procura da verdade,
Porque a vida é só metade.

Fernando Pessoa, in Inéditos

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Quando está frio...


Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas 
O natural é agradável só por ser natural.


Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno -
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar - 
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar  o natural inevitável.
[...]
Fernando Pessoa, in Poemas Completos de Alberto Caeiro



sábado, 27 de janeiro de 2018

Apesar de...

                                                                  Uma das coisas que aprendi
                                                                   é que se deve viver apesar de

Apesar de, se deve comer
Apesar de, se deve amar
Apesar de, se deve morrer


Inclusive muitas vezes
é o próprio apesar de 
que nos empurra para a frente


Foi o apesar de que me deu
uma angústia que, insatisfeita,
foi a criadora da minha própria vida.

(Clarice Lispector)

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Mãos nunca vazias...

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
                                                         A força dos meus sonhos é tão forte, 
                                                           Que de tudo nasce a exaltação
                                                                  E nunca as minhas mãos 
                                                                             Ficam vazias.



                                       Sophia de Mello Breyner Andresen, in Antologia Poética

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Um engenheiro destroçado ...



Conclusão a sucata!...Fiz o cálculo, 
Saiu-me certo, fui elogiado...
Meu coração é um enorme estrado
Onde se expõe um pequeno animálculo...
Artesanato feito com sucata
A microscópio de desilusões
Findei, prolixo nas minúcias fúteis...
Minhas conclusões práticas, inúteis...
Minhas conclusões teóricas, confusões...

Que teorias há para quem sente
O  cérebro quebrar-se, como um dente 
Dum pente de mendigo que emigrou?


Fecho o caderno dos apontamentos
E faço riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou...

     
Soneto IV de  Barrow-on-Furness,
in "Ficções do Interlúdio", de Álvaro de Campos,
heterónimo de Fernando Pessoa

                                      
                                   







sábado, 19 de agosto de 2017

"Ausência"...


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo. 
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.


E sinto-a, branca, tão pegada,
Aconchegada nos meus braços,
Que rio, danço e invento exclamações alegres,
Porque a ausência, essa ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.



Carlos Drummond de Andrade