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terça-feira, 28 de abril de 2020

...do desassossego...


 
 "Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa.  [...] - sim, mas as coisas pequenas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e as terei, pelo menos naquele preciso e exacto momento, doem-me metafisicamente. Abre-se-me um abismo na alma e um sopro frio da boca de Deus roça-me pela face lívida.
 O tempo! O passado! Aí algures, uma voz, um canto, um perfume ocasional levantou em minha alma o pano de boca das minhas recordações.... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância.
Quando os evoco, toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."

Fernando Pessoa, in «O livro do desassossego»

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Neve branca...


Os anjos os anjos no céu
Um trajado de oficial
Outro de cozinheiro 
E os outros cantam



 O garboso oficial da cor do céu 
A primavera doce muito para lá do Natal
Premiar-te-á  com um raio luminoso
De um bonito sol
 O cozinheiro depena os gansos... 
Ah! cai a neve
Cai e eu...
Não tenho a minha amada
 entre os meus braços




La blanche neige - Guillaume Apollinaire [1880-1918], in  Alcools 

domingo, 10 de dezembro de 2017

Chuva de outono...



Tristeza não se canta - 
- chora-se
que tristeza nasceu p'ra se chorar...



Chamou por ti na madrugada 
e não vieste

uma maçã roxa e perfumada 
feneceu na árvore

Aguarela de Filipa Antunes

na cela húmida de orvalho
como condenada
ela te esperava
e tu não estavas

e para sempre se quedou calada 
a madrugada. 


sábado, 15 de julho de 2017

Os girassóis na tarde...




levemente os girassóis estremecem
na tarde onde a brisa se quedou


no alto, o sol é uma brasa,
 é lume
as abelhas gigantes cansam o ar
volitando incessantes
de asas douradas pela claridade
e buscam néctar em cada flor aberta


as aves escondem-se sob as copas roçagantes
piam levemente e em surdina

o céu é de um azul ferrete
onde pequenas nuvens se destacam

no meu interior escuro e tépido
nem a sombra de um abraço
faz doer o silêncio

o calor lá de fora não permite
a saudade.

sábado, 6 de dezembro de 2014

dias de outono


 esvazio-me à claridade amorfa do dia
                                                             lento
                                                             morno

sonho 
revolta
         ou esperança
          tornam-se palavras vãs
          desintegradas de sentido
                                       amarfanhadas
                                     sucumbidas


só
a beleza de uma fresca
                                                             perfumada rosa
                                    produz vida 
               a cada raiar de incontornáveis 
                                  e cinzentos 
                                      dias de outono
          
quando ainda me tocam
                                     pela beleza pura 
                               que irradiam



sonhos adiados de um estio 
                                                                    nunca acontecido 
                                                                                  murcho 
     asas de borboleta entontecida 
                                                                          em esplendor
                                                                                         ao calor
           
                                        o frio é a sensação desgarrada de corrupto sentido
                                        o  calor - o som antitético de lareira
                                                                                       mesmo que a lareira exista


                                       e o silêncio dorme no coração da noite 
                                       
                                       dias-cinza fenecem na aguda
                                                                                 dolorida
                                                                                 sensação de ser.
                                                                                                      
                                                                                                        Myrtô, 2014
                                                                                                   












domingo, 6 de julho de 2014

Primavera outonal...


nasceu o dia num resplendor de bruma
céu e nuvens tamizam a claridade
a chuva cai direita em melodia doce
e ouve-se silêncio nas ruas da cidade.

pensamentos/desejos são apenas espuma
de dias a passar morrendo esmorecidos;
calo em mim cansaços de sentidos
e perco longe o olhar nas linhas do horizonte.

está mais um domingo a passear pelo monte
e mais e mais uma saudade quebrada pela bruma
se quebra em mim em eterno queixume
fantasiada de outono
 diluída em espuma
amante da solidão
 prisioneira das aves
carente - estática - estremecida
numa aura de espantos breves e suaves
que ligam pouco à vida...

de há muito orfã do mar
 inveja só das aves o voar.

SG - (julho-2014)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Identidade...


[05:35 - 01.01.2014]   


Deitou-se com a primeira madrugada 
Desse ano menino
Que não saudou
Nem desejou

A madrugada fria não a agasalhou
Nem confortou

E também não chorou

Em silêncios harmónicos
De alvores febris
Sentiu sombras de ausência 
Vacilando num torpor de brumas

No inverno imperante de surdos rugidos
Havia finitos vazios de ânsia sofrida
Que chegavam devagarinho para não assustar
A gadanha inclemente e fria...

Prometera-se evitar chorar
Cansada de viver a eterna ausência


E afinal  deu-se conta
De haver humidade nos olhos
E dor no coração.

Anaïs


sábado, 28 de dezembro de 2013

Sonho...e Espaços...


Vens lá do fundo
da noite, com a face
junto à Morte.
Tudo agora é branco e diáfano
como o vento norte.

Voltas ao Mundo
como um fruto maduro
e tu esperas, esperando sempre,
como a rosa dos ventos sobre as vagas.

Há ainda a manhã nupcial
brilhando ao alto, no cimo das escarpas:
e tu vens, calma e movente,
no debruar das águas...

A vida clama junto ao rosto:
 - há palavras na orla dos espaços...

Papiniano Carlos, Rio Subjacente

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Mater Dolorosa


Quando se fez ao largo a nave escura
Na praia essa mulher ficou chorando,
No doloroso aspecto figurando
A lacrimosa estátua da amargura.

Dos céus a curva era tranquila e pura:
Das gementes alcíones o bando
Via-se ao longe, em círculos, voando
Dos mares sobre a cérula planura.

Nas ondas se atufara o Sol radioso,
E a Lua sucedera, astro mavioso,
De alvor banhando os alcantis das fragas...

E aquela pobre mãe, não dando conta
Que o Sol morrera, e que o luar desponta,
A vista embebe na amplidão das vagas...

Gonçalves Crespo (1846-1883) , Nocturnos

sexta-feira, 3 de maio de 2013

SEM TI...


ann morton


E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos 
oiço a música das tuas.

Eugénio de Andrade, Coração do dia

domingo, 21 de abril de 2013

No extremo do possível...


A casa
privada de mastros
facilmente é
exígua e rasa

Azul estridência
do silêncio
o céu
consome-se na pedra

O cume é a água

Eugénio de Andrade, Véspera da Água

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Toucado...


Touquei com rosas o Silêncio
E ouvi na distância a melodia

Alonguei no tempo a cedência 
Das horas vividas ao reboque
Da Ilusão

Contemplei máscaras de sons 
Sob o ouro antigo do teu olhar
Luminoso e doce

Por fim enriqueci-me de pérolas
De espanto
E bailei no vento
Num cansaço de pranto.

Alexandra Reis

sábado, 16 de julho de 2011

Eis-me


Eis.me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente.

Sophia de Mello, Livro Sexto