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quarta-feira, 6 de março de 2019

"Vento no rosto"





À hora em que as tardes descem,
noite aspergindo nos ares,
as coisas familiares
noutras formas acontecem.

As arestas emudecem.
Abrem-se flores nos olhares.
Em perspectivas lunares
lixo e pedras resplandecem.

Silêncios, perfis de lagos,
escorrem cortinas de afagos,
malhas tecidas de engodos.

Apetece acreditar,
ter esperanças, confiar,
amar a tudo e a todos.

António Gedeão, in Poesias Completas

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

No canto dum galo...

Encontro


Quando o galo cantou na escuridão
Como um claro rumor que afasta o medo,
É que ele viu que chegara a ocasião
E que findara enfim o seu degredo.

Fosse qual fosse o dedo
Que lhe apontava a vida, era de mão
Que conhecia o mágico segredo
De negar e rasgar a solidão.

- Mundo! - disse ele então. - Mundo de todos!
Mundo de estrelas, de ilusões, de lodos,
Onde nada é sozinho nem disperso.

Mundo! Sou eu aquela voz perdida,
Que vem juntar-se a ti, arrependida,
Trazendo a humana gratidão de um verso.

Miguel Torga, in Poesia Completa I




domingo, 13 de janeiro de 2019

O rouxinol e a Noite...

Cantilena



Cortaram as asas 
ao rouxinol.
Rouxinol sem asas
não pode voar.


Quebraram-te o bico,
rouxinol!
Rouxinol sem bico 
não pode cantar.


Que ao menos a Noite 
ninguém, rouxinol!,
ta queira roubar.
Rouxinol sem Noite 
não pode viver,

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Quando a geada cai...


 Nas noites de inverno, quando a geada cai
Nem sequer se ouve o ladrar de um cão;
Por baixo do céu enorme e luminoso 
  A lua, hirta como um pedaço de metal,
Brilha, gélida e imóvel.
Sucede, porém , por vezes, ouvir-se
Um cão que, não se sabe porquê,
 Uiva longe, muito ao longe, 
Lá no fundo, sob a lua indiferente, 
Como se o som  subisse  do fundo do inferno
Quando a geada cai, nas noites de inverno.

[Tradução livre do poema de Maurice Carême, Quand la nuit gèle]


domingo, 17 de dezembro de 2017

Noite em melodia...


Noite perdida,
não te lamento:
embarco a vida

no pensamento,
busco a alvorada
do sonho isento,

puro e sem nada,
- rosa encarnada,
intacta, ao vento.




Noite perdida,
noite encontrada,
morta, vivida,

e ressuscitada...
Asa da lua
quase parada,

mostra-me a sua
sombra escondida, 
que continua

a minha vida
num chão profundo!
- raiz prendida

a um outro mundo.
Rosa encarnada
do sonho isento,


muda alvorada
que o pensamento
deixa confiada

ao tempo lento...
Minha partida,
minha chegada,

é tudo vento...


Ai da alvorada!
Noite perdida,
noite  encontrada...

Cecília Meireles - "Música"...

sexta-feira, 14 de março de 2014

Nocturno(s) VI e VII


Há um inverno nas copas extáticas
e as estrelas acenderam-se de um vento alto
que azulou o céu
de um azul que a noite foi roendo consigo.

***



***
Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.

Jorge de Sena

quarta-feira, 12 de março de 2014

Nocturno V


Já tudo escureceu;
Contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.

É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.

A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.

Jorge de Sena

Nocturno IV


Aquelas estrelas desenham um quadrado mal feito.

Nas noites claras de mar imenso,
enquanto a proa ia ensinando às águas
o murmúrio para depois, ao longo do navio, 
os mastros procuravam devagar o centro do quadrado.

Para baixo do centro havia três estrelas juntas.
Quando calhava passarem por entre duas,
repetiam todo o princípio
e vinham passar por entre as outras duas.

Jorge de Sena

segunda-feira, 10 de março de 2014

Nocturno.III


Contaram-me, quando era pequeno,
a história de várias estrelas,
 não a história dos nomes que têm e não conhecem por nós,
sim uma história em que eram estrelas,
verdadeiras estrelas nem pregadas no céu.
Muitas vezes, ouvir contar foi só:
estar de cabeça pousada no peitoril da janela
 a vê-las tremeluzir...
e tornarem-se mais salientes com o escurecer.


Muitas vezes, foi só
aceitar o frio e fechar a janela
 - e, em pequeno, não era eu quem a fechava.

Jorge de Sena


terça-feira, 11 de junho de 2013

Chegou a noite...



Chegou, chegou a noite silenciosa,
Com pés de sombra, olhar de lua, e tudo
Perde a crueza dolorosa
Sob esfuminhos de veludo...
[...]
Chegou, chegou a noite escancarando as portas
Da imensa catedral do firmamento!
Neste instante de Vida, haverá almas mortas?
Mal sem arrependimento?

Humano coração que não descansas,
Mar Negro que sempre sobes,
Deixa-te adormecer como as crianças,
Chegou a noite... miserere nobis!

José Régio

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Luta...


Dorme a noite encostada nas colinas.
Como um sonho de paz e esquecimento
Desponta a Lua. Adormeceu o vento,
Adormeceram vales e campinas...

Mas a mim, cheia de atracções divinas,
Dá-me a noite rebate ao pensamento.
Sinto em volta de mim, tropel nevoento,
Os destinos e as Almas peregrinas!

Insondável problema!... Apavorado
Recua o pensamento!... E já prostrado
E estúpido à força de fadiga,

Fito inconsciente as sombras visionárias,
Enquanto pelas praias solitárias,
Ecoa, ó Mar, a tua voz antiga.

Antero de Quental

quarta-feira, 25 de abril de 2012

"Exortação ao Sono"


Noite, que tens o dia à tua beira,
Discreto como um anjo velador:
Dorme e não sonhes, aligeira
A negra duração da tua dor.
Nenhum sol se detém no seu caminho,
Mas todo o Deus regressa.
Noite, bebe o teu vinho
Antes que o anjo se despeça!

Miguel Torga, Diário III


sábado, 14 de abril de 2012

Lua que dança...


Tranquila, a lua 
que o sol ilumina
lá do outro lado da terra
dança sobre as ondas alvacentas
 da maré que vaza...

Ou é um mero 
e envergonhado
 reflexo
desse sol?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Herança do familiar de estrelas


Atrás de si ficam as palavras
Mais belas que o mundo
Ninguém ousa contemplar-se nelas

Esperam nas dobras do tempo
Maiores que os homens
Quem poderá dizê-las?

Estendidas repousam na terra sem fala
Pesam mais que os ossos da vida
Não foi fácil à morte
Levá-las por dote
Ninguém pode erguê-las
Ninguém derrubá-las

Só as estrelas cadentes
À sua sombra procuram abrigo

Eugénio de Andrade, Trocar de Rosa

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Noite escura




É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz de uma janela.
Vejo-a e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora e que não sei quem é
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.
Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.

Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só vejo aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?

Alberto Caeiro, Poemas