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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Distante Melodia...


Num sonho de Ìris morto a ouro e brasa,
Vem-me lembranças doutro Tempo azul
Que me oscilava entre véus de tule -
Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa. 
(...)
(...)
Lembranças fluídas... Cinza de brocado... 
Irrealidade anil que em mim ondeia...  
- Ao meu redor eu sou Rei exilado, 
Vagabundo dum sonho de sereia... 

Paris, 30 de Junho de 1914


Mário de Sá Carneiro, in no lado esquerdo da alma

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Não foi por mal...


Naufrágio

Não era por mal...
A onda que vinha 
não vinha por mal.

Mas veio, mas veio...
E logo a barquinha
partiu pelo meio.


Nem homens, nem velas.
- : Quanto a bordo ia,
com fé abalara,
morreu já sem ela.

Mas se a onda veio,
não veio por mal:
era irmã daquela
que chegou à praia,
que embala barquinhos
de meninos pobres.

Os meninos brincam.
Navegam em barcos
feitos de cortiça,
feitos de jornal.
Quase à mesma hora,
longe, os pais naufragam
 sem nenhuma ajuda.

Mas não é por mal...

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa esperança

sábado, 23 de setembro de 2017

L'ETE INDIEN- [JOE DASSIN ] que antecede o outono dos amores...

Luís Romero

As cores do outono quentes, vivas,
conservam todo o sabor 
que o verão emprestou...
com as tonalidades das paixões vividas
aquecem o ar, 
 dominam os cabelos do vento
e este faz-se doce ao embalar de  manso 
tudo que é já frágil 
e anseia descanso...

 A claridade é diáfana 
as nuvens rosadas ao sol poente 
e a paz chega de uma forma quente
e aprende-se a amar as últimas rosas 
não com a ânsia sem medida
de quem é jovem e voraz 
mas dos que experimentam o outono
 dum tempo outrora pleno de promessas
e se preparam a encarar com galhardia
o mistério da morte, essa eterna ferida...

Lá vai mais uma folha ao vento 
pisada, macerada,
cumprido que foi o seu ciclo de vida...

Folhas  cansadas são as que o vento leva
  de gentes que amaram
sofreram, choraram...e sossobraram 
abraçando lúcidas, conscientes, 
 o seu sonho de amor.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Círculos de violência - o silêncio




hoje a fria razão veio ao meu encontro
e vi profunda tristeza em seu olhar
aconcheguei-a contra mim suavemente
beijei-lhe com doçura a fronte pura
mantive o silêncio e pronto o sorriso
num desejo profundo de a acalentar

depois vacilei para encontrar o rumo
que nada tivesse com o verbo amar
e a intenção diluiu-se em fumo
- algo insistia em o fazer lembrar.

um soluço ficou preso na garganta
escondido o rosto a  disfarçar

... era lâmina que cortava a carne
 rasgava a alma
 num holocausto feroz de tradição milenar

terça-feira, 11 de junho de 2013

À beira da corrente...




À beira da corrente
Se vem sentar quem sente
Subir do coração a onda de amargura.
A lua, no céu claro,
Não faz nenhum reparo,
E a mágoa que nos dói não mancha a noite pura...

Como entre si falando,
As águas vão passando,
Cantando, se é cantar o seu chorar a rir;
E a plácida elegia,
Tão música e poesia,
Só diz o que quiser ouvir quem vem ouvir...




[...]

À beira da corrente
Se vem sentar quem tente
Beber até ao fundo o cálix muito cheio.
Na noite clara e boa,
Nem o sofrer magoa,
Porque no fim é o Mais, - a dor é só no meio...

Se já não tens mais nada
Senão olhar, da estrada,
Aléns que julgarás que nunca atingirás,
Poeta ou desgraçado, 
Vem! senta-te a meu lado:
Deixemo-nos ir até ao fundo desta paz...

José Régio

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Crianças...


Dia e noite
as notícias estão chegando
telegráficas e sensacionais
dos confins do mundo.

 - Sobre destroços de casas e de árvores
crianças chinesas boiando à deriva
na corrente do rio Amarelo transbordado!

- Poliomielite grassando 
nas províncias argentinas!

- Socorro tratamento urgente
para o menino das montanhas dos Abruzos
perdendo a vista pouco a pouco!

- Agasalhos abrigos alimentos
para as crianças húngaras foragidas
do esmagamento e das labaredas soviéticas!

Dia e noite
as agências dos jornais estão telegrafando
a rádio espalhando o alarme!

[...]

Jorge Barbosa,  in Claridade, nº 8 - 1958