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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A estrada incompreendida


Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não? 
Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste 
A mão que teve
Qualquer sentido 
Incompreendido, 
Mas tão de leve!...
Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa
Incompreendida...
Sei eu que quando 
A tua mão 
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?
Como se tu, 
Sem o querer, 
Em mim tocasses
Para dizer 
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses 
Que tinha ser.
Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa 
Coisa feliz.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro-[09.05.1934]

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Este país...


Este país é um corpo exasperado,
a luz da névoa rente ao peito,
a febre alta à roda da cintura.

O país de que te falo é o meu,
não tenho outro onde acender o lume
ou colher contigo o roxo das manhãs-

Não tenho outro, nem isso importa,
este chega e sobra para repartir
com os corvos - nossos amigos.

 Eugénio de Andrade

domingo, 29 de maio de 2011

Meditação



Tudo imaterial na praia rasa
Cheia de sol, ao fim da tarde.
Proa ao vento quebrada,
A vaga, entre rochedos, se ilumina.

É tudo imaterial, tudo neblina
Ténue que aos poucos arde,
Ao fim da tarde se desfaz, flutua,
E voo de ave desliza
Ao longe linha pura.
Tudo imaterial na praia rasa.

Aqui ninguém me vê: amo a ternura.

Ruy Cinatti, O Livro do Nómada Meu Amigo, 2ª ed.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Tenho sono em pleno dia




Tenho sono em pleno dia.
Não sei de quê, tenho pena.
Sou como uma maresia.
dormi mal e a alma é pequena.

Nos tanques da quinta de outrem
É que gorgoleja bem.
Quanto as saudades encontrem,
Tanto minha alma não tem.

Fernando Pessoa, Poesias Coligidas/Inéditas [05-04-1931]

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Noite escura




É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz de uma janela.
Vejo-a e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora e que não sei quem é
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.
Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.

Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só vejo aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?

Alberto Caeiro, Poemas

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Dança das palavras


Rasgaram-mo...
Fulgor que me guiou,
Apagaram-mo...
As taças coruscantes de vanádio,
Onde bebi a Crápula e a Loucura?...
Tardes macias de Amor...
Oiro que em mim reflectia...
Tudo lambeu o gládio
Do Anjo que me acordava
E me falava
Na noite escura...
Tardes macias de Amor...
Oiro que em mim reflectia...
::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
Há um peregrino que me bate à porta
E vem passar comigo as noites, em sono insano...
Esse peregrino... é o Desespero Humano!
::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
Como eu queria que florisse a minha Alma morta!
- Porquê? O oiro já passou...
- Porquê? - O laivar negro já foi luar,
E desse lume nada em mim ficou
A brilhar...

Vítor A.e Silva - 1956-01-30



quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Estoicismo

Tu que não crês, não amas, nem esperas,
Espírito de eterna negação,
Teu hálito gelou-me o coração
E destroçou-me da alma as primaveras.
Atravessando regiões austeras,
Cheias de noite e cava escuridão,
Como um sonho mau, só ouço um não
Que eternamente ecoa entre as esperas.
- Porque suspiras, porque te lamentas,
Cobarde coração? Debalde intentas
Opor à sorte a queixa do egoísmo.
Deixa aos tímidos, deixa aos sonhadores
A esperança vã, seus vãos fulgores...
Sabe tu encarar, sereno, o abismo!
Antero de Quental, Sonetos

sábado, 25 de julho de 2009

Obsessão


Obsessão

Que forças obscuras detiveram
Os indecisos passos, na aurora
Duma vida sem culpa?

Que vozes ignotas, que segredos
Toldaram o olhar que reflectia
O fulgor da manhã?

Que secreta mão pousou no ombro,
Frágil, da perdida infância
E suspendeu o riso que floria
Nos lábios sem mentira?

Jamais o saberemos. Experientes
Dos humanos caminhos da tristeza,
Nunca mais nossos olhos conheceram
A luz que visionaram algum dia!

Luís Amaro (In «Artes e Letras» - Diário de Notícias, 1-05-19579


sábado, 11 de julho de 2009

Visão

Visão

A J. M. Eça de Queirós


Eu vi o Amor - mas nos seus olhos baços
Nada sorria já: só fixo e lento
Morava agora ali um pensamento
De dor sem trégua e de íntimos cansaços.

Pairava, como espectro, nos espaços,
Todo envolto num nimbo pardacento...
Na atitude convulsa do tormento,
Torcia e retorcia os magros braços...

E arrancava das asas destroçadas
A uma e uma as penas maculadas,
Soltando a espaços um soluço fundo,

Soluço de ódio e raiva impenitentes...
E do fantasma as lágrimas ardentes
Caíam lentamente sobre o Mundo!

Antero de Quental, Sonetos