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domingo, 10 de dezembro de 2017

Chuva de outono...



Tristeza não se canta - 
- chora-se
que tristeza nasceu p'ra se chorar...



Chamou por ti na madrugada 
e não vieste

uma maçã roxa e perfumada 
feneceu na árvore

Aguarela de Filipa Antunes

na cela húmida de orvalho
como condenada
ela te esperava
e tu não estavas

e para sempre se quedou calada 
a madrugada. 


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

«Chove?»...


Chove? Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia 
Em que o ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia?


Onde é que chove que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
 Ó céu azul, chamar-te meu...

E o escuro ruído da chuva 
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...

Foto Rick Forrestal

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... e a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuto, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...

Quando é que eu serei da tua cor,
Do teu plácido e azul encanto,
Ó claro dia exterior, 
Ó céu mais útil que o meu pranto?

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

sábado, 8 de novembro de 2014

Rosa branca à chuva...


Imagem da web

Do meio da névoa, a manhã chorava sobre as rosas
num pranto doce, com meneios dançantes, ritmados.

Pobres rosas de Outono de corolas pendidas,
injustamente estremecidas pelo vento acre, sem calor...

A manhã, o dia e as rosas
 choravam por ti, por mim, por nós,
exaustos e sem cor.

Por todos nós, amor.

domingo, 6 de julho de 2014

Primavera outonal...


nasceu o dia num resplendor de bruma
céu e nuvens tamizam a claridade
a chuva cai direita em melodia doce
e ouve-se silêncio nas ruas da cidade.

pensamentos/desejos são apenas espuma
de dias a passar morrendo esmorecidos;
calo em mim cansaços de sentidos
e perco longe o olhar nas linhas do horizonte.

está mais um domingo a passear pelo monte
e mais e mais uma saudade quebrada pela bruma
se quebra em mim em eterno queixume
fantasiada de outono
 diluída em espuma
amante da solidão
 prisioneira das aves
carente - estática - estremecida
numa aura de espantos breves e suaves
que ligam pouco à vida...

de há muito orfã do mar
 inveja só das aves o voar.

SG - (julho-2014)

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Chuva...


«O mal, como as crianças, existe na terra.»
Dizes isso de forma tranquila,
enquanto os teus olhos perscrutam a noite.
Por este tempo que tudo destrói, 
 estás então tão preocupado 
que eu nada vejo do teu sofrimento,
 a tua tranquilidade é quase malvada  - 
e  a água que cai entre nós 
cai entre nós como num buraco?

Paul Éluard, in Le rire d' un autre(tradução)


sábado, 15 de dezembro de 2012

Madrigal...


Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Melopeia



Acordei
Ao som de uma melopeia mansa
Espreitei...
Incessante, densa
Intensa
A chuva cortava
O silêncio da manhã...
Chorava

Já tinha saudade
Deste som macio
E frio...
Desejei que não parasse
E lavasse
Arrastasse
As névoas
Da minha alma.

13.02.011