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terça-feira, 21 de maio de 2019

...A Primavera esquece nos barrancos...



Jan Baptist Bosschaert  - Still Life of Flowers

Há um Poeta em mim que Deus me disse...
A Primavera esquece nos barrancos
As grinaldas que trouxe nos arrancos
Da sua efémera e espectral ledice... 

Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos...
Pobre de anseios teu ficar nos bancos 
Olhando a hora como quem sorrisse ...


Florir do dia a capitéis de Luz...
Violinos do silêncio enternecidos...
Tédio onde o só ter tédio nos seduz...

Minha alma beija o quadro que pintou...
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E cismo o seu perfil de inércia e voo...

Fernando Pessoa, in Cancioneiro - poema II de Passos da Cruz

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Quando a geada cai...


 Nas noites de inverno, quando a geada cai
Nem sequer se ouve o ladrar de um cão;
Por baixo do céu enorme e luminoso 
  A lua, hirta como um pedaço de metal,
Brilha, gélida e imóvel.
Sucede, porém , por vezes, ouvir-se
Um cão que, não se sabe porquê,
 Uiva longe, muito ao longe, 
Lá no fundo, sob a lua indiferente, 
Como se o som  subisse  do fundo do inferno
Quando a geada cai, nas noites de inverno.

[Tradução livre do poema de Maurice Carême, Quand la nuit gèle]


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A estrada incompreendida


Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não? 
Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste 
A mão que teve
Qualquer sentido 
Incompreendido, 
Mas tão de leve!...
Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa
Incompreendida...
Sei eu que quando 
A tua mão 
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?
Como se tu, 
Sem o querer, 
Em mim tocasses
Para dizer 
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses 
Que tinha ser.
Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa 
Coisa feliz.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro-[09.05.1934]

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Um soneto de Pessoa...



Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanta a mania de sentir
Que me extravio às vezes a sair
Das próprias sensações que eu recebo.


 O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu medo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.




Nem nunca propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu 
Serei tal qual pareço em mim? Serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?


Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente. 


Fernando Pessoa, in Ficções do Interlúdio

sábado, 6 de dezembro de 2014

dias de outono


 esvazio-me à claridade amorfa do dia
                                                             lento
                                                             morno

sonho 
revolta
         ou esperança
          tornam-se palavras vãs
          desintegradas de sentido
                                       amarfanhadas
                                     sucumbidas


só
a beleza de uma fresca
                                                             perfumada rosa
                                    produz vida 
               a cada raiar de incontornáveis 
                                  e cinzentos 
                                      dias de outono
          
quando ainda me tocam
                                     pela beleza pura 
                               que irradiam



sonhos adiados de um estio 
                                                                    nunca acontecido 
                                                                                  murcho 
     asas de borboleta entontecida 
                                                                          em esplendor
                                                                                         ao calor
           
                                        o frio é a sensação desgarrada de corrupto sentido
                                        o  calor - o som antitético de lareira
                                                                                       mesmo que a lareira exista


                                       e o silêncio dorme no coração da noite 
                                       
                                       dias-cinza fenecem na aguda
                                                                                 dolorida
                                                                                 sensação de ser.
                                                                                                      
                                                                                                        Myrtô, 2014
                                                                                                   












sábado, 23 de novembro de 2013

Quando a geada cai...


Quando cai a geada, nas noites de inverno,
não se ouve nem um cão
ladrar sob o imenso e claro céu
onde uma gélida lua se queda
rígida como um bocado de ferro.
Porém, por vezes acontece  
que, não se sabe porquê, um cão uiva
sob a lua gelada, ao longe,
longe, muito longe, como se o seu uivo
surdisse do fundo do inferno 
quando a geada cai, nas noites de inverno.

Maurice Carême - (tradução)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Juventude



Arde e não queima
o que sinto agora
junto à lareira.

Não foi desejo,
não, infelizmente,
o que perdi.
Foi o coração,
mais que demente
esteio da vida.

Palavras tenho
para queimar.

Ruy Cinatti (O Tédio Recompensado)

domingo, 21 de agosto de 2011

Tempo da morte



O silvo da máscara de oxigénio, o fedor que se insinua
De formol, rancho, suor, mijo, medo, medo...

A conversa ciciada, o olhar cúmplice, a ruga sábia,
O tilintar na bacia dos pensos, o bater teatral do coração..

Luz velada, silêncio segredado. Longe, a sirene, o arrepio,
O recontar da mesma história, em bicos dos pés...

Tudo cessa. Será a mágoa pelo que não foi,
O resgate, uma saudade nas entranhas,
A ignorância de tudo, ou medo só?

Que indefinido rumor este,
Este sobressalto na pele?
Este sabor tão estranho, amargo, azedo, gostoso?
Esta indiferença? Esta náusea? Este remorso?

Para quê este pranto alheado, de surpresa?

Será?

Tomaz Kim, Exercícios Temporais


domingo, 29 de maio de 2011

Meditação



Tudo imaterial na praia rasa
Cheia de sol, ao fim da tarde.
Proa ao vento quebrada,
A vaga, entre rochedos, se ilumina.

É tudo imaterial, tudo neblina
Ténue que aos poucos arde,
Ao fim da tarde se desfaz, flutua,
E voo de ave desliza
Ao longe linha pura.
Tudo imaterial na praia rasa.

Aqui ninguém me vê: amo a ternura.

Ruy Cinatti, O Livro do Nómada Meu Amigo, 2ª ed.

domingo, 20 de março de 2011

Orquídeas



Orquídeas altivas são flores de orgulho
Sempre achei.
E são dotadas de formas e cores vistosas
Bem o sei.

Afirmam que duram mais que as rosas
E sei por quê.
Duras se mostram, mais que formosas
E ninguém vê.

Também tristeza ecoa como perfume
E adensa em mim.
E um soluço o vago vagalume
Que poisa no jardim.


M. Vasco

domingo, 23 de agosto de 2009

Paisagens...


Paisagens...

Paisagens quero-as comigo.
Paisagens, quadros que são...
Ondular louro do trigo,
Faróis dos sóis que sigo,
Céu mau, juncos, solidão...

Uma pela mão de Deus,
Outras pelas mãos das fadas,
Outras por acasos meus,
Outras por lembranças dadas...

Paisagens...Recordações.
Porque até o que se vê
Com primeiras impressões
Algures foi o que é,
No ciclo das sensações.

Paisagens...Enfim, o teor
Da que está aqui é a rua
Onde ao sol bom do torpor
Que na alma se me insinua
Não vejo nada melhor.

Fernando Pessoa, 08-03-1931 [Poesias Coligidas/ Inéditas 1919-1935]