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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

É o Outono...


É o Outono doente que começa
  Cada folha doente que tem pressa
                                                         De morrer. 
Madura e fatigada, a natureza, 
Roída por não sei que súbita incerteza,
Até nos frutos quer apodrecer.

E há um desalento igual dentro de mim.
Uma renúncia assim 
Calada e conformada.
Perdi o gosto verde de cantar,
A emoção vem à tona e degenera,
Infecunda, a negar
As muitas flores que dá na Primavera.

Miguel Torga, Diário XIV, 1984

sábado, 8 de novembro de 2014

Rosa branca à chuva...


Imagem da web

Do meio da névoa, a manhã chorava sobre as rosas
num pranto doce, com meneios dançantes, ritmados.

Pobres rosas de Outono de corolas pendidas,
injustamente estremecidas pelo vento acre, sem calor...

A manhã, o dia e as rosas
 choravam por ti, por mim, por nós,
exaustos e sem cor.

Por todos nós, amor.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Identidade...


[05:35 - 01.01.2014]   


Deitou-se com a primeira madrugada 
Desse ano menino
Que não saudou
Nem desejou

A madrugada fria não a agasalhou
Nem confortou

E também não chorou

Em silêncios harmónicos
De alvores febris
Sentiu sombras de ausência 
Vacilando num torpor de brumas

No inverno imperante de surdos rugidos
Havia finitos vazios de ânsia sofrida
Que chegavam devagarinho para não assustar
A gadanha inclemente e fria...

Prometera-se evitar chorar
Cansada de viver a eterna ausência


E afinal  deu-se conta
De haver humidade nos olhos
E dor no coração.

Anaïs


sábado, 28 de dezembro de 2013

Sonho...e Espaços...


Vens lá do fundo
da noite, com a face
junto à Morte.
Tudo agora é branco e diáfano
como o vento norte.

Voltas ao Mundo
como um fruto maduro
e tu esperas, esperando sempre,
como a rosa dos ventos sobre as vagas.

Há ainda a manhã nupcial
brilhando ao alto, no cimo das escarpas:
e tu vens, calma e movente,
no debruar das águas...

A vida clama junto ao rosto:
 - há palavras na orla dos espaços...

Papiniano Carlos, Rio Subjacente

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Escutar...


No grito rouco de teus passos
Há registos lassos
Daquela melodia
Que já sei de cor

Patrick Poivre d' Arvor

sexta-feira, 3 de maio de 2013

SEM TI...


ann morton


E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos 
oiço a música das tuas.

Eugénio de Andrade, Coração do dia

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Olhos vazios...


As longas horas de espanto
e a agonia
da madrugada em noite consumida

O silêncio de pedra construída
por mãos de homem
e um pranto de renúncia consentida

a sede de água renascida
em nuvens e areias prometidas

A pergunta em dores acesa
e acendida
ante uns olhos vazios e vazios

Carlos Maria de Araújo

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Juventude...


Arde e não queima
o que sinto agora
junto à lareira.

Não foi desejo.
não, infelizmente,
o que perdi.
Foi o coração,
mais que demente
esteio da vida.

Palavras tenho
para queimar.

Ruy Cinatti. O Tédio Recompensado

segunda-feira, 26 de março de 2012

Pranto humano...


Se houvesse o eterno instante e a ave
ficasse em cada bater de asas para sempre,
se cada som de flauta,
sussurro de samambaia, mover,
sopro e sombra das menores coisas
não fossem a intuição da morte,
salsa que se parte...
Os grilos devorados não fossem,
no riso da relva, a mesma certeza
de que é leve a nossa carne
e triste a nossa vida corporal,
faríamos do sonho e do amor
não apenas esta renda serena da espera,
mas um sol sobre dunas e limpo mar,
imóvel, alto, completo, eterno,
e não o pranto humano...

Alberto da Costa e Silva

quarta-feira, 17 de março de 2010

Tenho sono em pleno dia




Tenho sono em pleno dia.
Não sei de quê, tenho pena.
Sou como uma maresia.
dormi mal e a alma é pequena.

Nos tanques da quinta de outrem
É que gorgoleja bem.
Quanto as saudades encontrem,
Tanto minha alma não tem.

Fernando Pessoa, Poesias Coligidas/Inéditas [05-04-1931]

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Bruma no horizonte




Horas. Nove...Dez...
Que importa?
Veio o tempo
Bater sempre à minha porta
Sem que lhe desse permissão
De entrar.

Ficou.
E a mágoa que deixou
Conta-se nos minutos
Que encontrou
No tecer da vida
Por passar.

Sophia Guiomar - Poemetos [10-09-2005}

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Abraço



Acredito neste abraço
Que pode até ser dado
A um desconhecido...
Ou recebido...
Acredito, sim.
Tem bondade,calor,
Humanidade
E perdão,
E muita compaixão
Numa entrega de verdade.

Acredito...E porque não?
Se é tão raro o amor,
E tão raro dar valor
Ao que se chama de ilusão
Na noite da cidade...

Então... então...

Escuta o teu coração
E mitiga o terror
De que sofre com dor
A tua humanidade.

Aliete Maria

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Saudade


Vestida da saudade mais longa, ó meu amor,
Abafei o pranto no diverso desencanto
De não mais ousar até a ti chegar...
O calor de uma entrega ainda pairou no ar...
Vergada na dor, sequiosa do teu calor,
Ainda e sempre sonhando em te abraçar
Ultrapassei da tristeza a ponte
Para além do horizonte...
Além...
Além do mar...

Sofia Guiomar - 2009,11,o2




quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Dias outonais


Monótonos correm os dias dum fim de verão citadino em que o sol brilha sempre, ainda dá calor e os espaços do tempo parecem infinitos como uma ténue linha sobre a água parada dum lago limpo e sem vida. Um ar morno compadece-se suavemente da natureza que ensandeceu sob o calor tórrido, quase líquido, de metal em fusão, do astro rei que tanto tem o poder de dar a vida quanto de destruí-la sem piedade. E no interior da cidade, entre os prédios feios e deselegantes, um espécie de silêncio, entrecortado de vagos rumores de motor,de passos nas calçadas e de vozes abafadas, ressoa como um suspirar de fim de dia.
Há no ar parado das pessoas que passam um desespero mudo, entranhado, resultante talvez de férias fugidias, frustrantes, desejadas ou não gozadas. Já nem se dá por que um novo ano escolar começou, porque as escolas ficam fora da vida da cidade: as crianças e jovens raramente circulam a pé e em buliçosos magotes como outrora, privadas dos passeios e calçadas, apinhadas agora em veículos pesados ou conduzidas nos automóveis particulares de família ou conhecidos. Tudo o que borbulhava e estuava de vida parece ter-se plasmado no tempo do que é adulto e cinzento, cinzento e adulto.
Nos bancos dos jardins pousam, na tarde morna, as pombas que em vão esvoaçam à procura de alimento. Há uma praça larga que a maioria dos passantes atravessa quase em passo de corrida sob as tílias que se desfazem lentamente das folhas de um verde acinzentado que desbotou em tons suaves de amarelo. A sombra que foi fresca e desejada torna-se quase gélida se o vento norte sopra.
Não apetece deambular pela cidade - não tem vida. A vida pasmou nos bairros e fugiu das calçadas, das ruas, dos passeios. As pessoas arvoram um ar triste ou compenetrado agressivo ou indiferente. Caminha-se por necessidade, vive-se por viver, olha-se por olhar. Fadigas inconfessáveis pairam como pó entorpecente e há o rumor surdo que tudo orquestra: as pessoas e os raros bichos que se atrevem por ali a deambular, a atravessar as ruas - é o barulho surdo de autómatos, que se arrastam sobre as rodas de borracha, verdadeiramente os únicos que transitam e mostram alguma energia.
Os veículos são os habitantes citadinos privilegiados nas ruas dos dias outonais. Ditos ao serviço das pessoas fazem melhor que isso - substituem-nas e promovem a asfixia do ar envolvente.
A poesia do outono lê-se olhando o chão não varrido das folhas caídas, entrelaçadas com o lixo urbano, raramente biodegradável.

sábado, 25 de julho de 2009

Recurso



Recurso

Foi um sorriso o gesto que ficou
de me desperdiçar sem desalento:
uma pequena onda, no momento
mais trágico do mar - pequena e só.

Tudo evoluiu; apenas alvo e puro
prolonga-se o momento em jogo breve
dum sorriso que ficou a quem não teve
a âncora firmada em cais seguro.

De resto, o vendaval foi amansado
perante a tempestade dum sorriso
(tempestade oculta, como um guizo
que ninguém agitou, por ser cansado).

Dentro do meu cais, desfez-se a bruma.
Um sorriso domou a tempestade.
E o mundo se jogou na imensidade
duma pequena coisa, apenas uma.

Fernanda Botelho, As Coordenadas Líricas, 1951