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terça-feira, 28 de abril de 2020

...do desassossego...


 
 "Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa.  [...] - sim, mas as coisas pequenas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e as terei, pelo menos naquele preciso e exacto momento, doem-me metafisicamente. Abre-se-me um abismo na alma e um sopro frio da boca de Deus roça-me pela face lívida.
 O tempo! O passado! Aí algures, uma voz, um canto, um perfume ocasional levantou em minha alma o pano de boca das minhas recordações.... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância.
Quando os evoco, toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."

Fernando Pessoa, in «O livro do desassossego»

domingo, 3 de março de 2019

Do Carnaval


Parece-me que sim...



Parece-me...não sei que me parece...
Que me par'cia há pouco...que per'cia;
Não sei se a ilusão des'pareceria:
Vejamos se ela agora reaparece.

Não costuma par'cer ao que parece
Que parece, senão que per'ceria:
Parece-me isto a mim, e par'ceria 
A qualquer outro: a ti que te parece?

Lá vem a ilusão reaparecendo!...
Custa a par'cer-me agora que pereço:
Mas...com certeza vou... cá vou per'cendo!...

Devo par'cer sem cor?... pois não pareço?!
Já me par'ceu o que me está par'cendo - 
Talvez eu não pereça... não pereço.

João de Deus, in Campo de Flores

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Dístico




O viver que grita muito não diz nada.
A morte ao dizer tudo é bem calada.
[1938-07-08]
Jorge de Sena, in 40 anos de servidão

sábado, 12 de janeiro de 2019

"Se alguém mentiu..."


Se alguém mentiu, não fui eu.
 - Eu vinha alegre e cantava.
Se alguém mentiu foi o Sol,
se alguém mentiu foi o Mar,
que ficavam tristes, tristes,
à medida que eu cantava.

Se alguém mentiu não fui eu.
 - Se alguém mentiu, foi o Céu:
era azul e fez-se pardo,
como se fosse da Morte
que a minha boca falava.

Eu vinha alegre e cantava.
Tudo, à volta, escurecera. 
Se havia naquele dia
qualquer palavra sincera,
da minha boca saía.

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Mãos nunca vazias...

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
                                                         A força dos meus sonhos é tão forte, 
                                                           Que de tudo nasce a exaltação
                                                                  E nunca as minhas mãos 
                                                                             Ficam vazias.



                                       Sophia de Mello Breyner Andresen, in Antologia Poética

sábado, 18 de novembro de 2017

"Despedidas"...


António Nobre (1867-1900)
.................................................
...................................................
Ó morte, minha amiga de outrora,
Que fazes aí, há mais d' uma hora?!
Queres-me? Ah, sim?
Cortei as relações contigo.
Oh, vai-te! Já não sou teu amigo,
Nem tu de mim!

..........................................................
................................................................

......................«Repara como há luz 
No céu, mesmo de noite. A luz d' uma alegria,  
À noite do teu céu, também virá um dia.
Anda daí comigo; não ouves como o vento 
Desfolha sem piedade os choupos do convento?!»



Tantas folhas pelas ruas... que me importa;
São mais desgraças a bater-me à porta.

«Oh, verga a tua alma, tão alta como os astros
Que roçam pelas ondas e vão também aos astros.»

António Nobre, in Despedidas(1895-1899)

«Não há livro mais nosso que o , nem poeta mais português que António Nobre. Ele trouxe a linguagem poética ao nível da fala comum, fazendo da poesia o milagre de uma conversa à lareira.»
Vitorino Nemésio, in: O Só  de António Nobre, artigo


domingo, 13 de agosto de 2017

Saudade... em Ricardo reis

 SAUDOSO já deste verão que vejo,
Lágrimas para as flores dele emprego
Na lembrança invertida 
De quando hei-de perdê-las.


Transpostos os portais irreparáveis
De cada ano, me antecipo a sombra
Em que hei-de errar, sem flores,
No abismo rumoroso.


E colho a rosa porque a sorte manda.


Marcenda, guardo-a; murche-se comigo
Antes que com a curva 
Diurna da ampla terra.

in "Ficções do Interlúdio", de Ricardo Reis[heterónimo de F. Pessoa]

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Coisa natural...



[...]

A morte é natural na natureza. Mas
nós somos os que nega a natureza.Somos
esse negar da espécie, esse negar do que
nos liga ainda ao Sol, à terra, às águas. 
Para emergir nascemos. Contra tudo e além
de quanto seja o ser-se sempre o mesmo
que nasce e morre, nasce e morre, acaba 
como uma espécie extinta de outras eras.
Para emergirmos livres foi que a morte 
nos deu um medo que é nosso destino. 
Tudo se fez para escapar-lhe, tudo 
se imaginou para iludi-la, tudo 
até coragem, desapego, amor, 
para que a morte fosse natural.

[...]

Jorge de Sena in Metamorfoses

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Viúvas na praia...


Neste mesmo local, 
de olhos postos no mar,
 - quantas mulheres de Portugal
se vieram sentar? 

Quantas e quantas gerações aqui vieram
até à presente geração, 
que lutaram, pescaram e comeram
sardinha com pão.

Neste mesmo local,
de olhos cansados pousados no mar,
ai quantas, quantas mulheres do litoral
se vieram sentar...

Manhãs de tempestades despertaram,
homens e homens partiram, 
mulheres enviuvaram
e de negro se vestiram.

E como prémio tiveram, 
tiveram como pensão, 
algumas frases piedosas que lhes deram
e nem sardinha com pão, nem sardinha com pão.

Sidónio Muralha - Companheira dos Homens (1950)
in Poemas (1971)

domingo, 18 de agosto de 2013

Pálida e loira...


Morreu. Deitada no caixão estreito,
Pálida e loira, muito loira e fria,
O seu lábio tristíssimo sorria
Como um sonho virginal desfeito.

- Lírio que murcha ao despontar do dia,
Foi descansar no derradeiro leito,
As mãos de neve erguidas sobre o peito,
Pálida e loira, muito loira e fria...

Tinha a cor das rainhas das baladas
E das monjas antigas maceradas,
No pequeno esquife em que dormia...

Levou-a a Morte em sua garra adunca!.
E eu nunca mais pude esquecê-la, nunca!
Pálida e loira, muito loira e fria...

Gonçalves Crespo, Líricas e Bucólicas

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Curto espaço...


Neste curto espaço entre nós e a morte
tão mal gastamos nossa longa despedida!

......................................................

Neste curto espaço entre nós e a morte,
onde me vais perdendo,
onde te vou buscando,
nosso amor se vai embora alimentando
de despedida;

não porque morra o tempo em teus braços,
mas a vida.

Vítor Matos e Sá , in Horizonte dos Dias

sábado, 3 de novembro de 2012

«Perdição»...



Coimbra,12 de Outubro de 1958

Como a  tarde sem mim tem alegria!
como o sol vai contente sem me ver!
Uma noite de angústia em pleno dia...
Um tição na fogueira, sem arder...

Ah, danada trição de quem não sabe
Viver a vida!
Ah, pombas felizes
A catar o piolho do presente
Diante da tristeza dos meus olhos
Postos na eternidade!
Deus, a morte, a verdade,
E esta ilha de sombra
Num mar de luz!
Este molde vazio
De cada hora,
Agónico por dentro e fúnebre por fora

Miguel Torga, Diário VIII

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O único problema...

[...]
« - Porque a morte é verdadeiramente o único problema do homem[...] A morte é o grande horror do homem e sabeis que há homens que se matam com o medo da morte, mortis formidine? Imaginais alguém que parta a cabeça contra uma pedra por ter receio de se magoar nela? A morte é o pavor do fim da vida. Mas sabeis que depois dela o tempo acabou? que depois dela a vida de um jovem ou de um velho duraram o mesmo tempo? Ninguém tem memória de antes de nascer e depois de morrer também não. Lamentarmo-nos para depois da morte é supormo-nos vivos para então. Corpo e espírito têm nela o seu limite, ela pode ser assim não a maldição que se imagina mas a libertação do sofrimento. Por isso o suicídio não é um estigma mas o triunfo do homem sobre o destino. Se a vida é desgraçada é melhor pôr-lhe um fim? Non potius vitae finem facis atque laboris?
 - Mas acima de tudo, se queremos estar na vida em perfeita coordenação com ela, temos de saber que nada na Natureza é justo ou injusto. Que nada tem significado. Se houvesse justiça nenhum animal matava outro para subsistir. Não morreriam crianças indefesas. Não haveria catástrofes na Natureza. O homem de amanhã será um homem natural, limpo de todas as ilusões e tranquilo.»
Virgílio Ferreira, Na Tua face, cap. XIII, pág. 118-119

sábado, 19 de maio de 2012

Ver as flores de lótus...



... Quero morrer, quero ver as orvalhadas
flores de loto nas margens do Aqueronte...

Safo 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O que os deuses sabem...


É um mal morrer e os deuses bem o sabem:
se assim não fora, eles próprios morreriam.

Safo

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Morte...


Havia já anos que a tinhas expulsado,
fechado na cave, procurado esquecer.
Sabias que não estava na música, por isso cantavas;
sabias que não estava no silêncio, por isso te calavas;
sabias que não estava na solidão, por isso estavas só.
Que sucedeu então hoje
para que te assustasses, como alguém
que de repente visse, na noite,
um raio de luz sob a porta do quarto ao lado,
onde há tanto tempo já ninguém habita?

Vladimir Holan

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

É só mais um pôr-do-sol...


- Quando estamos demasiado tristes,
gostamos do pôr-do-sol...

Saint-Exupéry


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Pequena Metáfora da Aranha e da Mosca


Invisíveis fios de oiro à luz do sol sem vento
a solitária aranha preparou.
Como que dorme, agora. Aguarda o alimento:
um pequenino insecto desatento,
um impensado voo.

A mosca vem. Zumbe no ar. Esvoaça,
desprevenida, rápida, contente.
A solitária aranha sente a caça;
comprime-se no canto. E a mosca passa
mesmo ao lado da morte, velozmente.

Regressa. logo após. Mergulha. Evita
uma vez mais a morte certa. A teia
treme. A aranha freme. A morte grita.
A mosca - essa - permanece alheia.


Ziguezagueia, impávida. Descreve
três círculos concêntricos no espaço.

António Luís Moita, Sal

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Máquina Breve



O pequeno vagalume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a trova
- meteoro da noite humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
com sua triste lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega;
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.

Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.

Cecília Meireles

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

«Não sei se dor...»

Não sei se dor
Ou muito amor
Eu sinto.

Mas isto é maior do que a morte;
Não posso mais.
Eu minto.

Ruy Cinatti, Anoitecendo, a Vida Recomeça