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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Busca da verdade...


A montanha por achar
Há de ter, quando a encontrar,
Um templo aberto na pedra
Da encosta onde nada medra.

O santuário que tiver,
Quando o encontrar, há-de ser 
Na montanha procurada
E na gruta ali achada.

A verdade, se ela existe,
Ver-se-á que só consiste
Na procura da verdade,
Porque a vida é só metade.

Fernando Pessoa, in Inéditos

domingo, 11 de novembro de 2018

tempo há...


tempo há onde se vê correr um rio
nítido, ágil, 
 na direcção do mar;
que nos arrasta lenta,
mansamente,
na voragem,
e sentimos
ser a imagem
de barco altaneiro
a flutuar
**
tempos depois,
porém,
deixam de ver-se as margens
- não importam,
nem distraem -hélas!
e já pouco ou nada encantam...
**
mas são momentos...
**
as águas seguem no seu vagar suave
- às vezes convulso -
mas lá seguem...
**
nenhum de nós, porém, soube  pará-las
e, por muito que se esforce,
não aprende...
**
deixá-las lá seguir,
deixá-las:
águas do rio, lágrimas choradas,
suor de vidas maceradas,
deixá-las lá seguir 
o seu triste destino 
**
consigo levam
- lavam-
vagas de paixão, revolta, esforço,
encantamento,
e resquícios fúlgidos
da terna e translúcida grilheta
 em vida tecida
do imenso carinho
que um estranho acaso uniu.


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Port Wine...


O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape- Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.
[...]

Em Londres os lords e em Paris os snobs, 
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
 acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue, 
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!
Liberta-te, meu povo! - ou morre.

Joaquim Namorado - A Poesia Necessária (1966)

domingo, 10 de novembro de 2013

A caminho de Delfos...


Grécia antiga: pista dos corredores


Pitonisa - Delfos


Delfos: ruínas 

"(...) Caminhei para Delphos
Porque acreditei que o mundo era sagrado
E tinha um centro. (...)"

Sophia de Mello Breyner Andresen

(Obra Poética III, p. 112)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Exílio...


Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades


Sophia de Mello Breyner Andresen - Grades [1970]

segunda-feira, 4 de março de 2013

FADO


Quem passeia de negro meu cansaço
sob árvores queimadas de um incêndio?
Decerto quem cantou ao meu ouvido
os versos cuja rima era o silêncio.

Quem agora me arrasta pelas cinzas
foi quem já me embalou na mão das águas
e, sobre a lua gasta, pôs o archote
que consumia em lágrimas as mágoas.

Minha fadiga veste-se de luto
e canta para si mesma em voz de choro,
e a terra esquece as culpas que lhe cabem,
e arranca dos punhais fulgências de ouro.

Dormem os troncos nus salvos do fogo.
As folhas raras olham a noite imensa.
( Pupilas da floresta vigilantes!...)
Passeia o meu cansaço quem não pensa;

passeia o meu cansaço um braço inerte,
e arrasta-o pelas cinzas, velho arado.
Porém toda a semente foi perdida,
secou a seara; e, agora, há um novo fado!...


Alexandre Pinheiro Torres, Novo Génesis

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Destino amado...


O SOPRO INTERIOR

Passa um barco no rio. Volto a vê-lo
Depois, só nas velas insufladas,
Por sobre a multidão, o casario,
Outras faces da vida afeiçoadas.

Vai depois seguindo a sua rota.
Esqueço-me dele. Entanto surge
Por onde não há rio nem gaivotas.

Porém,
Coloco-o sobre as nuvens e assopro
Nas velas brancas o destino amado.


Ruy Cinatti, O Livro do Nómada Meu Amigo

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

"Presença"...


           
       Coimbra, 16 de Julho de 1953.

Por palavras te chamo e te conheço,
E por tristes palavras te defino:
Eras Deus no começo,
És agora Destino,
E a manhã serás Medo ou Covardia...
Mas tão sozinho aqui me encontro e sinto,
Que preciso, no instinto,
De companhia.

E um nome basta a quem não tem mais nada.
Com ele, ao menos, pode a mão fechada
Abrir-se e tactear o pesadelo...
Ninguém ainda; mas o som povoa
O silêncio que aperta e que magoa
As almas que não sabem recebê-lo.

Miguel Torga, Diário VII