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domingo, 26 de maio de 2019

..."fiquemos mudos"...




[29-08-1915]
Bocas roxas de vinho,
Testas brancas sob rosas,
Nus, brancos antebraços
Deixados sobre a mesa;

Tal seja, Lídia, o quadro
Em que fiquemos mudos, 
Eternamente inscritos
Na consciência dos deuses.

Antes isto que a vida
Como os homens a vivem,
Cheia da negra poeira 
Que erguem das estradas.

Só os deuses socorrem
Com seu exemplo aqueles
Que nada mais pretendem
Que ir no rio das coisas.

Fernando Pessoa / Ficções do Interlúdio, in Odes de Ricardo Reis




sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Quando está frio...


Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas 
O natural é agradável só por ser natural.


Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno -
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar - 
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar  o natural inevitável.
[...]
Fernando Pessoa, in Poemas Completos de Alberto Caeiro



sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Sombras serenas...


sábado, 31 de março de 2018

Ainda é tempo de frio...

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

*
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno - 
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar -
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.
*
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.
*
*
Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.
 
Fernando Pessoa, in Poemas Completos de Alberto Caeiro 


sábado, 23 de setembro de 2017

L'ETE INDIEN- [JOE DASSIN ] que antecede o outono dos amores...

Luís Romero

As cores do outono quentes, vivas,
conservam todo o sabor 
que o verão emprestou...
com as tonalidades das paixões vividas
aquecem o ar, 
 dominam os cabelos do vento
e este faz-se doce ao embalar de  manso 
tudo que é já frágil 
e anseia descanso...

 A claridade é diáfana 
as nuvens rosadas ao sol poente 
e a paz chega de uma forma quente
e aprende-se a amar as últimas rosas 
não com a ânsia sem medida
de quem é jovem e voraz 
mas dos que experimentam o outono
 dum tempo outrora pleno de promessas
e se preparam a encarar com galhardia
o mistério da morte, essa eterna ferida...

Lá vai mais uma folha ao vento 
pisada, macerada,
cumprido que foi o seu ciclo de vida...

Folhas  cansadas são as que o vento leva
  de gentes que amaram
sofreram, choraram...e sossobraram 
abraçando lúcidas, conscientes, 
 o seu sonho de amor.

domingo, 13 de agosto de 2017

Saudade... em Ricardo reis

 SAUDOSO já deste verão que vejo,
Lágrimas para as flores dele emprego
Na lembrança invertida 
De quando hei-de perdê-las.


Transpostos os portais irreparáveis
De cada ano, me antecipo a sombra
Em que hei-de errar, sem flores,
No abismo rumoroso.


E colho a rosa porque a sorte manda.


Marcenda, guardo-a; murche-se comigo
Antes que com a curva 
Diurna da ampla terra.

in "Ficções do Interlúdio", de Ricardo Reis[heterónimo de F. Pessoa]

sábado, 9 de janeiro de 2016

Cântico do sacrifício...


Eu colhi rosas no jardim da vida, 
Mas tive sofrimento;
Sofri tudo porém, sem um lamento
Pois colhi rosas no jardim da vida.

Feri as minhas mãos pelos espinhos,
Vi-as chorando sangue...
Continuei de coração exangue,
Ferindo as minhas mãos pelos espinhos.

Se perfumei o íntimo da alma,
Que importa o sofrimento?
Bendita dor, bendito sofrimento,
Pois perfumei o íntimo da alma.

Norberto Ávila

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Atitude...

« Mantenha uma atitude vitoriosa!
Quando você olha para uma pessoa curvada e triste, perde a confiança porque verifica que está abatida e preparada para uma derrota.
Não deixe que ninguém pense isso a seu respeito!
Mantenha-se de cabeça erguida, confiante e risonho e todos confiarão em você.
Irradie força e entusiasmo até por meio da atitude do seu corpo.»

Carlos Torres  Pastorino

domingo, 18 de novembro de 2012

Convencimento...


  Há um instante na vida em que cada um de nós se julga um deus: com uma doutrina a revelar, um calvário nos longes e um profeta...

Ant. Patrício, Words

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

falhar é vencer...


Aconteça o que acontecer,
continua a começar e a falhar.
De cada vez que falhares,
começa tudo de novo;
e tornar-te-ás mais forte,
até chegares à conclusão de que
cumpriste um propósito...

Anne Sullivan

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A Pedra...


«Quando nada parece ajudar, saio e olho para o homem que, lá ao longe, está a partir pedras; martela, talvez, umas cem vezes, abrindo apenas uma pequena brecha.
E, no entanto, à centésima martelada a pedra parte-se em duas.
Sei que não foi esse golpe que o fez, mas todos os outros que ele aplicou antes.»

Jacob Riis [1849 -1914]


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Preparar o futuro...





Mesmo que eu soubesse de certeza que o mundo acabaria



amanhã,



plantaria uma macieira ainda hoje.

Martinho Lutero (1483-1546)




macieira




domingo, 23 de outubro de 2011

VIDA


Quando eu morrer, deitem já fora os meus versos todos!
E que haja sol e mar e céu e sonho a rodos.
Haja crianças gritando de alegria
E em teus olhos a paz, a sombra da harmonia.

Quando eu morrer, que tenha cada pobre agasalho e pão,
E o abrigo de um tecto. E que o meu coração
Dado ardentemente a quem me precisou
Fique a vibrar, vibrar... De tudo o que passou
Guardarei tão somente a eterna alvorada.

Quando eu morrer já não preciso de nada.
E se deixar no mundo um pouco mais de Amor,
Um gesto mais amigo, uma consolação.
O repartir a vida e o repartir o pão,
Já não preciso nada. Não sentirei a Dor.

De tudo o que sabia fiz o que fui capaz.
Quis ser unicamente um fermento da Paz.
Passei. e não somente aqui, na minha rua,
Passei. débil, passei. frágil, passei. Pobre, passei.
E acabei.      
                                            A vida continua.

Eugénia Pedro - Jan.76

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Preencher a hora...


Preencher a hora - é isso a felicidade;
preencher cada hora e não deixar nenhuma brecha para o arrependimento ou o elogio.
Ralph Waldo Emerson (1803-1882)

sábado, 6 de agosto de 2011

«Quem muito viu...»


Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi - 

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.

Jorge de Sena, Peregrinatio ad  Loca Infecta (1969)



terça-feira, 31 de maio de 2011

Dignidade...



«A dignidade da inteligência está em reconhecer que é limitada e que o universo está fora dela.
Reconhecer, com desgosto próprio ou não, que as leis naturais se não vergam aos nossos desejos, que o mundo existe independentemente da nossa vontade, que o sermos tristes nada prova sobre o estado moral dos astros, ou até do povo que passa pelas nossas janelas... nisto está o vero uso da razão e a dignidade racional da alma.»


Barão de Teive, A Educação do Estóico[Obras de Fernando Pessoa]