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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Vestida para um baile...


Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com as suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

*
Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

*
Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
pois jamais se viveu com tanta plenitude.


Mas para falar da sua vida
tem de baixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Não foi por mal...


Naufrágio

Não era por mal...
A onda que vinha 
não vinha por mal.

Mas veio, mas veio...
E logo a barquinha
partiu pelo meio.


Nem homens, nem velas.
- : Quanto a bordo ia,
com fé abalara,
morreu já sem ela.

Mas se a onda veio,
não veio por mal:
era irmã daquela
que chegou à praia,
que embala barquinhos
de meninos pobres.

Os meninos brincam.
Navegam em barcos
feitos de cortiça,
feitos de jornal.
Quase à mesma hora,
longe, os pais naufragam
 sem nenhuma ajuda.

Mas não é por mal...

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa esperança

terça-feira, 25 de março de 2014

Olhos que choram...


Tristes cantigas de amor

Meus olhos que por alguém
Deram lágrimas sem fim,
Já não choram por ninguém
 - Basta que chorem por mim.
Arrependidos e olhando
A vida como ela é,
Meus olhos vão conquistando
Mais fadiga e menos fé.
Sempre cheios de amargura!,
Mas se as coisas são assim,
Chorar alguém - que loucura!
 - Basta que eu chore por mim!

António Botto(1897-1959)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Imprevisto corrigido


Se minto? Quantas vezes! 
Mas em palavras. Não 
não nos meus olhos castanhos portugueses,
nestas linhas atávicas da mão...
Se minto?... Minto, pois! 
Mas nas orais palavras que vos digo.
 Não nas que entoo a sós comigo,
E em que enfim deixo de ser dois. 
Não nas que entrego a músicas, miragens. 
Alegorias, fábulas, mentiras.
Cadências, símbolos, imagens, 
Ecos da minha e mil milhões de liras. 
Se minto?... Minto! É regra de viver.
Mas não quando, poeta, me desnudo, 
E a mim me visto de inocência, e a tudo.
Venha quem saiba ver!
Venha quem saiba ler!

José Régio

domingo, 6 de novembro de 2011

Eros

François Boucher-Autunm

Nunca o verão se demorara
assim nos lábios
e na água
- como podíamos morrer,
tão próximos
e nus e inocentes?

Eugénio de Andrade, Mar de Setembro

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Forma de inocência


Hei-de morrer inocente
exactamente
como nasci.

Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi,

Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta..
Uma forma de inocência,
que apoquenta.

Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ser igual.

António Gedeão, Movimento Perpétuo