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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

«Nada do mundo»...


Nada do mundo me é segredo ainda:
tudo já sei, já espero, ou o que acontece
apenas do imprevisto se ilumina
de quanto aqui se repetiu diverso
mas tanto não que a estupidez humana 
a mesma não pareça que conheço.

Perdi toda a inocência, todo o espanto,
e todo o encanto de que a vida ferve
o pouco juvenil de horror e anseio
e de prazer também, com que chegamos,
vazios e sem nada, ao passo extremo
que só de inútil tempo se prolonga.

Bogna Patrycjia Altman

Quanto melhor seria ter servido 
alguma ideia, um deus, qualquer senhor,
bem falsos ou mundanos , e traíveis
nesse fingir de crença ou lealdade 
com que a miséria humana se imagina
mais rica e nobre do que o nada oculto!

[...]

Jorge de Sena, in 40 anos de servidão

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Não foi por mal...


Naufrágio

Não era por mal...
A onda que vinha 
não vinha por mal.

Mas veio, mas veio...
E logo a barquinha
partiu pelo meio.


Nem homens, nem velas.
- : Quanto a bordo ia,
com fé abalara,
morreu já sem ela.

Mas se a onda veio,
não veio por mal:
era irmã daquela
que chegou à praia,
que embala barquinhos
de meninos pobres.

Os meninos brincam.
Navegam em barcos
feitos de cortiça,
feitos de jornal.
Quase à mesma hora,
longe, os pais naufragam
 sem nenhuma ajuda.

Mas não é por mal...

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa esperança

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Mãos nunca vazias...

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
                                                         A força dos meus sonhos é tão forte, 
                                                           Que de tudo nasce a exaltação
                                                                  E nunca as minhas mãos 
                                                                             Ficam vazias.



                                       Sophia de Mello Breyner Andresen, in Antologia Poética

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A vida... [Riqueza]


Por parques e praças,
Ruas e travessas,
Tu, meu olhar, caças
A vida. E tropeças.


Uma gargalhada
Vem dum par contente.
Guarda-a bem guardada,
Mas caminha em frente.


Surgem-te sorrisos
Dum e doutro lado.
Não faças juízos
Rápidos. Cuidado!





 Uma face grave
Nada te revela?
Talvez a dor cave,
Só mais tarde, nela.

Num choro, num grito,
Pressentes a dor?
E quedas, aflito.
Segue, por favor!


Segue, bem aberto 
Para cada canto!
Olha o desconcerto
Que parece tanto!
Corre, olhar, em roda!
O que te intimida?
A vida? Só toda
Pode amar-se, a vida.

Alberto de Serpa (1906), Rua

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Percurso...


O tempo corre sem remédio 
diluído no manto do afecto belo e passageiro
 como a flor da primavera 
Corre para um futuro 
que se constrói pouco e pouco
Deixa atrás tudo o que não se modifica 
com seus mistérios, esperanças,
alguns medos,
espinhos e rosas.
A cada hora, a cada decisão, 
deixa escrita uma história
de momentos magníficos
alegres ou enamorados
ou amargos, tristes, desesperados
e vazios de amor.

O tempo não é inimigo:
é namorado. 

Anaïs - 2006.09.20

terça-feira, 26 de novembro de 2013

"Tão bonito o maganão"...


"O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!..." 

João de Deus, Campo de Flores

terça-feira, 2 de julho de 2013

Desconcerto...


Tive o jeito de rir, quando menino, 
Até beber as lágrimas choradas 
Com carantonhas, gestos, desatinos,
Passou a nuvem e os pequenos nadas.

A rir de escuridões, de encruzilhadas,
Tornei-me afeito logo em pequenino;
Porque ri é que trago as mãos geladas,
E choro porque ri do meu destino.

Vivi de mais um mundo idealizado
Comigo só. E só de mim descreio.
Entornava-me riso a luz em cheio

Quando o meu mundo foi principiado;
Rio agora que não sei donde me veio
Sempre o mal que me trouxe o bem sonhado.

Afonso Duarte, Ossadas