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domingo, 30 de dezembro de 2018

Esforço...



A montanha por achar
Há-de ter, quando a encontrar,
Um templo aberto na pedra
Da encosta onde nada medra.

O santuário que tiver,
Quando o encontrar, há-de ser
Na montanha procurada
E na gruta ali achada.


A verdade, se ela existe,
Ver-se-á que só consiste
Na procura da verdade,
Porque a vida é só metade.

Fernando Pessoa, [1934], in Inéditos

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Um soneto de Pessoa...



Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanta a mania de sentir
Que me extravio às vezes a sair
Das próprias sensações que eu recebo.


 O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu medo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.




Nem nunca propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu 
Serei tal qual pareço em mim? Serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?


Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente. 


Fernando Pessoa, in Ficções do Interlúdio

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Lágrima...


Dos olhos me cais,
redonda formosura.
Quase fruto ou lua, 
cais desamparada.
Regressas à água
mais pura do dia,
obscuro alimento
de altas açucenas.
Breve arquitectura
da melancolia.
lágrima, apenas.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Hora de partir...


A hora da partida soa quando
Esmorece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

Sophia de Mello



quarta-feira, 1 de maio de 2013

sábado, 29 de dezembro de 2012

Luar...


O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem.
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva
Feita de sombra e luz, temor e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

FOME

Pudessem minhas mãos falar às tuas
e dizer-lhes: sim, quero-te muito.
Pudesse eu inundar-te de ternura
e no silêncio ter-te, ampla e desnuda.
Que eu não faria versos sobre mim,
nem falaria em rosas, alma, lua.

Pudesse o meu olhar adormecer-te,
colher-te, fresca e firme, a forma viva.
Que coisas não faria nesta vida?
Que coisas não seria?

João Rui de Sousa, Circulação

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Prenúncio



E quando a Solidão
Não souber onde morar
Tu, meu Amor,
Virás
A me buscar...

Sofia Guiomar, Poemetos 2009-08-02




quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Poema de saudade



Nos meus olhos secou-se aquela fonte
Donde brotava dor e ânsia desmedida
E não sou mais a sereia encanecida
Que devorava os símbolos e a paisagem
Esperando reconhecer a tua imagem
No caos da forma e linha conhecida
Na bruma envolvida de horizonte
Ou no estagnar aquoso da descida

Também eu mudei não sei se bem
Mas mudei realmente a desprazer
Tentando olvidar as linhas do teu rosto
Que amei e execrei com tanto querer

Agora que o Outono caricioso chega
Vestindo belas galas de castanho
Vívido ainda arroxeado de encanto
Tento em vão segurar o pranto
Que a brisa arrepia ao entardecer
Num desfalecer mórbido de sono
Prenhe de ternura e de quebranto
Ainda pleno do encanto de viver

Firme contudo na força da verdade
Macerada e humilde escravizada e terna
Murmuro no dealbar morno do dia
Ou da noite enlutada a mesma litania
Adeus amor vadio. Adeus para sempre
Ficarei sem ti até à eternidade


Sophia Guiomar[02-09-2009]