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quinta-feira, 27 de março de 2014

Elogio da Distância...


Sou distância de mim sobre os outeiros.
Distância, um cisne entre lagoas idas,
Um afago de mãos desconhecidas.
Mãos crispadas cerrando reposteiros.

Distância, nos meus olhos, é um seio
Que amamentou outras Paisagens mortas,
É o eterno ser no meu receio,
É o fechar contínuo de áureas portas.

Diante de mim essa distância existe,
Eternamente longe e sempre triste,
Doida toada que em penumbras fito.

É um descer de bronzes no meu medo,
É uma curva de Ânsia no arvoredo,
Um gotejar de cinza no infinito.


Alfredo Guisado (1891)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Loucura





Não é tempo de rosas. É inverno.
E sem ter dia
A rosa azul dum sentimento
Florescia.
Cálida, terna, doce, nem dormia.
Olhá-la, senti-la... morrer lento
Ou revivescer, numa estranha agonia.
Já não é flor, agora,
Mas borboleta de cor
Exangue de magia
Que ao bem querer cedeu.
Voando, doidamente, reinventou o inferno
...esquecida,no entanto,que se há loucura,
A maior louca, aqui...
... sou só - e apenas - eu.

Sophia Guiomar

sábado, 14 de novembro de 2009

Canção de vida


Não te fies do tempo nem da eternidade
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!
Aparece-me agora que ainda reconheço
a anémona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...

Cecília Meireles







quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Mágoa


Mágoa

E toda a vida esperei
Busquei
Achei
Beijei
Chorei
Não reconheci
Tão pouco esqueci
E no amálgama do horizonte
Não encontrei fonte
Nem água
Que fizesse a ponte
Para além da mágoa

M. Silva [08-10-2009]



domingo, 16 de agosto de 2009

Rosas



Rosa, Rosae

Dá-me rosas, outras rosas
dá-me mais rosas amor.

Já olhaste bem as rosas?
Rosas-bocas rosas-olhos
e há rosas-coração.
Há rosas que são sorrisos
e rosas que são paixão
Rosa-beijo rosa-abraços
e rosas-mãos.

Numa noite de luar
uma grande rosa aberta
acenou-me num jardim:
corri logo para ela
- seria a rosa-aventura?


Pela tarde num caminho
à hora em que o sol cansado
pensava em ir-se deitar
encontrei uma roseira
com uma rosa em botão
e muitas folhas e espinhos
- e estava ali porquê?
Linda rosa cor-de-rosa

Era o amor feito rosa,
sem saber...


Merícia de Lemos [Rosa,Rosae]



Como uma flor incerta...


Como uma flor incerta...

I

Como uma flor incerta entre os teus dedos
Há a harmonia dum bailar sem fim,
E tens o Silêncio indizível dum jardim
Invadido de luar e de segredos.

II

Nas tuas mãos trazias o meu mundo.
Para mim dos teus gestos escorriam
Estrelas infinitas, mar sem fundo
E nos teus olhos os mitos principiam.

Em ti eu conheci jardins distantes
E disseste-me a vida dos rochedos
E juntos penetrámos nos segredos
Das vozes dos silêncios dos instantes.

III

Os teus olhos escorrem como fontes,
E em todo o teu ser existe
O sonho grave, nítido e triste
Duma paisagem de pinhais e montes.

Na tua voz as paisagens são nocturnas
E todas as coisas graves, grandes, taciturnas
A ti são semelhantes.

Sophia de Mello [Dia do Mar]




sábado, 15 de agosto de 2009

Apenas versos



Apenas versos

Lindos, tão lindos os versos que tefiz
Mesmo quando espelham pretensa indiferença
No ignorar os dias e escutar o pensamento
No correr contra o tempo e contra o vento
E expulsar maldades que não quiz
Inverdadades que contemplo
Ao esbater-se no horizonte o canto
Sereia eterna do vasto desencanto
De saudades vãs...
Secou-se tudo em mim
Nesse desespero inerme e rouco
Preso, fundo, bem fundo,
Solitário e louco
Tecido na suave claridade das manhãs.

[16/04/2009)


quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Dia cinza


Dia cinza
...E o dia cinza tem nome de inquietude
se a dor intensa busca uma verdade.
Escondido, o Sol requeima e fere a imensidade
E respostas fluem estranhas,
mas ricas de virtude:
Nunca sentir
Nunca sofrer - amar a vida.
Mostrar aridez e recusa no existir.
Correr contra o tempo e amar a corrida -
- contrasenso infindo de rigor isento.
Ter e não ter domínio sobre nós
o que só depende de atitudes e de escolhas,
de ter coragem, de dizer que não em alta voz,
em viver e morrer na cinza dos afectos
o triste vazio
de infinitos discretos
quando olhar para trás
não vale nunca a pena.
Labirinto da dor
em que recordar é ser loquaz
e nunca, por nunca ser,
se não encontra paz
nem razão para viver
dentro de nós.

[2009]